A menina estava sozinha, sem seus brinquedos, ansiando por alguém.
O menino era ainda mais só. As mãos fortes esfarelavam o que desejasse.
Se conheceram, e na praia, deram um mergulho fundo, e algumas tragadas de ar.
A vida berrou-lhes nos ouvidos, dos quais escorria uma aquecida água do mar.
Mas logo haveria de calar-se, pois os calados eram ainda mais profundos que o mar.
O novo capitão, para passar melhor o tempo, esmerou-se na construção de um boneco. Expirou-lhe o espírito. Tornou-se ventríloco.
Antes mesmo de partir, testou a fala. Soava real. Até para si mesmo.
Buscou o Oriente e suas maravilhas. Encontrou uma de cabelos dourados. O espírito hesitou pois já não reconhecia bem a casa.
Partiu, pois o mundo lhe chamava. Mas nenhum porto o contentava. Rezou por ajuda.
- Sim, respondeu-lhe a silhueta de um fantasma espelhada na água: menos luz vai te fazer bem.
- Por que não? pensou o boneco. Mas mandou o ventríloquo em seu lugar.
Viveu algumas aventuras, mas tempos depois, num dia distraído, saltou-lhe por cima seu senhor, dominou-o, e sem explicar, deu-lhe o mesmo remédio.
Saído assim rápido da penumbra, seus olhos se incandesceram. O sol beijou-lhe a boca salgada e lambeu-lhe o pescoço forte. Parecia que não anoiteceria mais.
Num dia de outono porém, anunciou-se uma penumbra, envolveu-lhe e ao navio, por sobre ela vinha o boneco, trazendo uma mordaça de ferro dourado na qual pode ver horrorizado o seu nome escrito. Imobilizado. O boneco colocou-lhe no colo, e pôs-se a falar por ele. E por onde passava, era aclamado pelo seu engenho.
Um mal destino se desenhava, mas em suas navegações tinham se aproximado demais do Pólo Norte, e o magnetismo mostrou-se intenso, extenuante, implacável, e a velha mordaça cedeu.
Quem diria que justamente por estas frestas pudesse entrar algo tão suave. Era um veneno ou era um remédio?
Dependia da dose, claro. E acima não foi um bom negócio...
Acabou por matar o boneco.
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sexta-feira, 20 de junho de 2014
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
A Grande Beleza (texto baseado no filme)
O vovô está muito parado hoje.
Está olhando pela janela desde manhã.
Eu olhei também, mas não consegui ver o que ele vê.
Às vezes ele sorri sem tirar os olhos de lá.
Aí eu olho de novo... mas nada.
Perguntei à mamãe e ela disse que é para eu ir cuidar de coisas de crianças.
E deixar as coisas de velho prá lá.
Por mais chato que seja olhar para o Jeb parado lá a manhã toda,
Quando ele sorri, parece que alguém está puxando e abrindo as cortinas para um belo espetáculo começar.
O que não faria sentido seria sorrir assim ao final do espetáculo.
Eu odeio a minha vida.
A voz doce da minha mãe me enjoa como um melaço tomado no bico da garrafa.
O olhar cuidadoso de meu pai me cerca e me oprime.
Eis que um dia conheço o amor.
A lua reflete-se na água, a água ondula com o vento e o vento brinca com teu vestido.
Tu diz-me 'Vem' e é como se o tempo também fosse contigo, lento, lentíssimo.
E de repente,
Tudo acelerado. Rodopiam. Gritam. Se esfregam. Cospem. Chafurdam.
E eu com eles. Eu sou eles. Não busco mais nada. Tampouco fujo. Fico ao vento.
E o vento me assopra. Mas persisto altivo. Me bajula, persisto. Me vira o rosto, me rio.
E eis que desiste. E por um instante sinto o sol arder em meu rosto, antes que a noite fria, acelerada, me abrace, dizendo-me que ela, e só ela, será minha companheira até o fim.
Sinto saudades. Sinto tristeza. Sinto culpa. Por isso não sinto mais nada.
Apenas um leve incômodo em meus cotovelos há tanto tempo apoiados no parapeito da janela.
E lembranças que me assaltam furtivas, brincalhonas, saudosas de mim.
E meu neto a me olhar, curioso, como se quisesse adivinhar o que vejo.
Ora o que vejo...
Está olhando pela janela desde manhã.
Eu olhei também, mas não consegui ver o que ele vê.
Às vezes ele sorri sem tirar os olhos de lá.
Aí eu olho de novo... mas nada.
Perguntei à mamãe e ela disse que é para eu ir cuidar de coisas de crianças.
E deixar as coisas de velho prá lá.
Por mais chato que seja olhar para o Jeb parado lá a manhã toda,
Quando ele sorri, parece que alguém está puxando e abrindo as cortinas para um belo espetáculo começar.
O que não faria sentido seria sorrir assim ao final do espetáculo.
Eu odeio a minha vida.
A voz doce da minha mãe me enjoa como um melaço tomado no bico da garrafa.
O olhar cuidadoso de meu pai me cerca e me oprime.
Eis que um dia conheço o amor.
A lua reflete-se na água, a água ondula com o vento e o vento brinca com teu vestido.
Tu diz-me 'Vem' e é como se o tempo também fosse contigo, lento, lentíssimo.
E de repente,
Tudo acelerado. Rodopiam. Gritam. Se esfregam. Cospem. Chafurdam.
E eu com eles. Eu sou eles. Não busco mais nada. Tampouco fujo. Fico ao vento.
E o vento me assopra. Mas persisto altivo. Me bajula, persisto. Me vira o rosto, me rio.
E eis que desiste. E por um instante sinto o sol arder em meu rosto, antes que a noite fria, acelerada, me abrace, dizendo-me que ela, e só ela, será minha companheira até o fim.
Sinto saudades. Sinto tristeza. Sinto culpa. Por isso não sinto mais nada.
Apenas um leve incômodo em meus cotovelos há tanto tempo apoiados no parapeito da janela.
E lembranças que me assaltam furtivas, brincalhonas, saudosas de mim.
E meu neto a me olhar, curioso, como se quisesse adivinhar o que vejo.
Ora o que vejo...
sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
domingo, 6 de março de 2011
Sobre a crítica, assemelhados, e a arte de pisar na grama sem machucá-la.
"Pise suavemente, pois você está pisando nos meus sonhos"
(poema he wishes for the clouths of heaven - W. H. Yeats)
(poema he wishes for the clouths of heaven - W. H. Yeats)
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