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domingo, 20 de janeiro de 2013

Deflorando mentes.

Eu sei quem você é.
Nós mal nos conhecemos.
Eu sou boa em adivinhação, intuição e em juntar peças desconexas quaisquer sobre a vida dos homens em geral. Mais alguns minutos de conversa e perguntas e eu poderei traçar um perfil completo de você.
Interessante... mas eu prefiro deflorar-te!
O que você está falando, seu canalha vulgar? Eu vou embora!
Fique aqui (ele a segura pelo braço), eu só posso e só vou deflorar a tua mente.
(silêncio e suspense angustiantes)
Eu não suporto o silêncio.
Ele é necessário. E agora que se acaba, vejo que em teu caso ele será quebrado de modo particularmente doloroso.
Estou ouvindo... (olhar desafiador)
Deflorar é tirar a flor. As pessoas comuns acham que trata-se de tirar a virgindade, romper o hímen. Mas como sabes, esta flor não te posso tirar novamente. Eu falo em deflorar a parte mais bela e intocada de tua mente: como julgas o mundo, e por reflexo, o que pensas de ti mesma.
(tristeza)
Aqui na rua? As pessoas estão olhando. Não faça isso, por favor.
É uma violência necessária a tua vida, pois estás a desperdiçando vergonhosamente, não preciso de tua autorização. Além disso, não te preocupes, eu já tive a minha vez, e por isso posso fazer isso por ti.
Levanta a saia dos teus preconceitos.
(ela, relutante, levanta)
Desabotoa a blusa de teus auto-enganos.
(seus dedos tocam os botões e hesitam; ele a ajuda)
Tira o sutiã de tuas ideologias.
Não (,) pára, eu não suporto mais isso. Tem que ser assim?
Tem que ser assim.
Baixa a calcinha de teus moralismos.
Eu não quero mais ouvir isso!
(se debate)
Estou quase acabando...
(Ela chora, enquanto as suas decisões anteriores, tão parecidas umas com as outras, alinham-se para uma última fotografia de despedida que faz sua mente latejar)
O que você fez comigo?
Perceba.
(ela primeiro desvia o olhar, mas quando olha,  mal se reconhece.)
Que é essa doce e intensa presença?
Acabamos. Veja como você está linda. Melhor, veja como VOCÊ É LINDA, PERFEITA!
(ela respira profunda)
Como te sentes sem a castidade mental com a qual impedias a ti própria o gozo dos teus infinitos, especiais e únicos potenciais?
Estranha, como se estivesse nua, mas não é ruim como eu imaginava. Estou bem...
Estás livre. Segue agora para uma vida intensa, porque os teus anos têm andado apressados. Já sabes o principal, que a beleza de tua mente não está em sua virgindade.
Posso ir contigo?
Dessa vez não.
Obrigada assim mesmo.



Esse texto foi desenvolvido a partir do texto original 'Deflorando mentes' de 2008 do mesmo autor.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Coração de princesa, boca de plebéia.

Seguindo o conselho de meus amigos, segue texto apartado e emancipado de sua fonte inspiradora.

Quem gosta de saber onde está pisando, pode tentar adivinhar qual é o filme de referência do texto...

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Um mundo dorme, o outro acorda.

Acordei eu, da minha vida enfadonha, para um silencioso pesadelo.
Adeus doce desconforto.

Aqui de fora, olho para nossa casa e vejo você dançando com seus amigos.
Aos 30 anos, me sinto muito só.

Cansei de ser eu.
Dizem que não posso mudar o que sou.
Dizem que as derrotas habituais são mais suportáveis.
Ameaçam: Se você for embora, será para sempre.
Murmuram: Não nos traia, não faça como aquele-você-sabe-quem.

Descubro que com uma chave-mestra posso ter qualquer coisa.
Custe o que custar, eu quero uma dessas.

- Para ganhá-la, tens que trincar o coração de cristal de uma princesa.

EU PRECISO de uma chave-mestra, não me importo com o resto.

- Vivo no submundo mas sou uma princesa de estirpe. Tenho o coração de uma princesa, sirvo?

- Para mim tu és apenas uma pirralha, fofa e imunda.

(Olhos marejados)
(Choro)...
E a chave-mestra finalmente em minhas mãos!  Minha jornada terminou?

Não, está apenas começando.
Despeja o escravo sorridente da sala e nela acolhe o bruto desajeitado que se esconde no porão.
Vai, diga mais à tal princesa, diga-lhe 'a verdade'!

Aqui, não gostamos de plebéias metidas a princesa, volte para a favela, feiosa.
Se resolver sair de lá, você deve ficar na cidade.
Desta cidade você não pode sair jamais.
A glória dos livres não é pra você.

Os gostos são muito variados, alguns são especialmente únicos e especiais.
Tu, és capaz de gostares de mim assim desse jeito.

Já o sabes? Como podem os doces amargar tão rápido?
Não quero mais o que queria antes.
Me perdoa?

Nem o doce nem o amargo permanecem.
Nossos passados já podem ser destruídos para que um novo destino nasça.
Toma meu coração, sabes o movimento, faze-o como quem puxa um plug da tomada.

E a partir de hoje nos faremos:

À força,
com coragem,
sorvendo a beleza,
dando amor...
e zoando de nossas finitude e pretensões.

Menina travessa e terrível guerreira!? Quantas camadas...


Uma, fina e impenetrável, para labutar ao sol em teu trabalho nojento,
Outra, de pura branca flor, para usar à noite com teu homem.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Alguns recusam o empréstimo da vida para evitar o débito da morte

"Alguns recusam o empréstimo da vida para evitar o débito da morte
...
... as pessoas que morrem mais felizes são as que melhor viveram suas vidas. E acredito que isso se deve ao fato de que elas não têm grandes arrependimentos por não ter vivido suas vidas. Afinal não precisam se arrepender de ainda não ter dito as pessoas ao seu redor como as ama, pois já disseram. Não se arrependem de não ter contemplado a beleza da natureza e da vida, pois já a fizeram. Não se arrependem de não ter rido e ter se divertido mais, pois fizeram de suas vidas uma grande alegria. Ou seja, não temem tanto a morte, pois já foram se despedindo de suas vidas aproveitando todas as oportunidades que ela lhe ofereceu. ..."

Texto de Claudia Goellner Signoretti veja em 

http://artigos.netsaber.com.br/resumo_artigo_33962/artigo_sobre_alguns_recusam_o_emprestimo_da_vida_para_evitar_o_debito_da_morte

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

A minha vida. Do meu jeito.

Linda música e interpretação sobre tomar as suas decisões e viver a própria vida com coragem:


quinta-feira, 31 de maio de 2012

Entrevista com uma baita de uma pessoa (Eliane Brum):

Primeira parte: Aqui, dentre outras coisas,você descobre que escutar de verdade é uma postura pessoal que lhe enriquece se transcende o utilitarismo nas suas atividades profissionais; http://www.youtube.com/watch?v=rln0WqI6tI8&feature=relmfu

Segunda parte: Aqui, dentre outras coisas, você aprende que contar a verdade, se for uma única verdade dentre as tantas verdades que a circundam, equivale, embora não seja, a uma mentira ; http://www.youtube.com/watch?v=26shR0oQ2Is&feature=relmfu

Terceira parte: Aqui, dentre outras coisas, você pode ver ou rever o fato de que 'grandes' pessoas não só admitem seus erros, como gostam e precisam muito dessa atitude; http://www.youtube.com/watch?v=DBenfWmTTu8&feature=relmfu

Quarta parte: Aqui, dentre outras coisas, aprendemos que as pessoas com as quais nos relacionamos são mais importantes do que objetivamos delas por obra de nossa profissão; http://www.youtube.com/watch?v=Q5Pi35pB0ds&feature=relmfu

Quinta parte: Aqui, dentre outras coisas, ficamos sabendo de uma galinha de verdade que foi flagrada em atitude suspeita e presa pela polícia; http://www.youtube.com/watch?v=XZISVP78NoI&feature=relmfu

Sexta parte: Aqui, dentre outras coisas: suas histórias provocam os nossos próprios constrangimentos, ela, como escritora, dá a mão ao leitor, mas para passar em lugares estranhos e difíceis; http://www.youtube.com/watch?feature=endscreen&NR=1&v=DIf2X6oq8EM

Enfim, espero que gostem.

PS. Se o link não funcionar, copiem e colem no navegador.

domingo, 17 de julho de 2011

Quem sou eu?

Tinha muitas posses e milhares de servos se devotavam a mim. Três destes eram minhas filhas e estas sempre usufruíram dos benefícios de minha posição. Também me amavam, cada uma do seu jeito. Mas como eu precisava ouvir o juramento solene deste amor, perante todos e válido por toda eternidade, lhes pedi a jura de amor mais pura e intensa que uma filha pode fazer a um pai. De uma delas, ingrata, não as recebi, senão como migalhas duvidosas e a tal afronta paguei deserdando a esta que tão acintosamente se mostrava bastarda de mim. Consumi a minha vida e a paz de minha`lma para ao final chegar ao lugar do qual eu nunca deveria ter saído, à insegurança daquele que ama e é amado sem garantias.

Perguntas: Que personagem da literatura eu sou? Ó leitor atento, trocas de lugar comigo, ignorando a pouca diferença entre a infelicidade revelada e a que está constantemente por se revelar?

debates

O que me agrada em ouvir os meus amigos discutindo é que aprendo mais que eles e com menos esforço e desgaste que eles enfrentam ao, interminavelmente, discutirem e argumentarem em busca da defesa de si proprios.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

IGray

Passo a desenvolver novos índices interessantes, a partir da expansão da ideia do IBOV (índice bovespa).

IGray: é o índice Dorian Gray de uma pessoa. Dorian Gray é o protagonista do romance "O retrato de Dorian Gray" de Oscar Wilde.

Nele um belo e inocente rapaz consegue, por meio obscuro, livrar-se de toda a feiúra e imoralidade que poderia lhe marcar a partir de suas práticas espúrias e continuar mostrando-se impecavelmente são em público, no seu dia-a-dia, enquanto o seu lado mau, humano e mesmo pútrido é mantido escondido das pessoas, de todas ou em geral, e sempre ou na maioria dos momentos.

Assim, quando alguém nos surpreende com um comportamento selvagem, primitivo, instintivo e até destrutivo, enquanto que no cotidiano esta pessoa se demonstra exatamente o contrário, dizemos que ela tem um IGray alto, ou seja, assemelha-se ao Dorian Gray ao mostrar a sua pureza e esconder a sujeira.

Todos temos um IGray maior ou menor. Quem é sempre bom e justo, pode, embora não necessariamente, indicar que "está escondendo sua alma sangrenta no sótão". é uma possibilidade do IGray.

Quem mostra em um momento uma explosão de instinto, permite um cálculo melhor do IGray ao permitir a comparação daquilo com o que a pessoa demonstra normalmente.

IGray baixo é uma face que é coerente em intensidade e em suas variações, de forma que estas não surpreendem em constraste com a personalidade normal, mas se harmonizam ou mesmo a reafirmam.

domingo, 6 de março de 2011

Sobre a crítica, assemelhados, e a arte de pisar na grama sem machucá-la.

"Pise suavemente, pois você está pisando nos meus sonhos"

(poema he wishes for the clouths of heaven - W. H. Yeats)

insights da constelação familiar

A supremacia do perdão, te libertando do julgamento que fazemos de nossos pais: "Do jeito que você pode ser (seja pai, mãe, irmão, amigo, filho,...), você é! (não há o que reparar; e o 'ser' supera o 'dever-ser').

(N.E.M)
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Para valer a pena, tudo o que você passou (coisas ruins), você tem que transformar, transmutar as coisas recebidas e fazer diferente, e bem, com elas.

(N.E.M)
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No filme de músicas 'The Wall', o protagonista luta e sofre com um enorme muro que o isola do resto das pessoas, e que foi construído durante a sua história infantil. Há uma solidão desesperadora.

E isso traz o papel do alcool à discussão. Dentre os vários motivos para usá-lo em demasia, um é o sentimento de solidão eterna e absoluta que se tem por estar cercado de uma muralha que não nos permite viver em companhia dos outros.

Nesta desesperadora situação (ainda que disfarçadamente ausente em uma pessoa cotidianamete gentil e agradável), o alcool aplaca a dor da solidão e constrói ligações com outras pessoas, quando não nos permitimos o amor e o perdão.

(este textículo é meu)

domingo, 5 de dezembro de 2010

Consciência tranquila, memória ruim.

Tem um ditado que diz que uma consciência tranquila pode se basear em uma memória ruim. Abaixo um texto interessante sobre o tema.


A guerra é péssima para a memória

A dificuldade para lembrar e assumir os episódios mais traumáticos do passado é comum a pessoas e países. Cada um remodela sua lembrança, e falta tempo para assimilar uma história global

Jacinto Antón
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Visite o site do El País: http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/elpais/2008/11/05/ult581u2893.jhtm


Matou alguém? "Não sei. Nunca se sabe. Todos atiram. Você atira..." Cirilo Carranza, 87 anos, não vacilou até agora. Abriu sua memória com uma exatidão surpreendente, lembrando fatos de 70 anos atrás: a marcha para o Ebro com a 13ª Brigada Internacional, entre campos onde os agricultores deixavam sua tarefa para animá-los levantando o punho e gritando "Viva a República!"; a travessia do rio em 25 de julho de 1938 às 24 horas. "Como passei? De barco, em silêncio; o medo o torna silencioso. Se havia perigo? Claro!"; o ataque da aviação na planície de Corbera - "Nos metralhou a esquadrilha de Morato, filhos da mãe, com seus Mecheresmits" [pronuncia assim, com stacato raivoso, e não Messerschmitts]. "Se nos apanham na serra de Pàndols, onde não se podia esconder, cavar, eu estaria morto"; o assalto "dos mouros, gente ruim, até hoje não posso nem vê-los"; a ocasião em que pela primeira vez em anos comeram bananas; os poloneses da brigada gritando "Curva!" - "Sabe o que significa? Sim, prostituta"; a retirada, "muito organizada", protegidos pela "Gloriosa, nossa aviação".

Ele lembrou, sorvendo seu café com leite e traçando linhas com os dedos sobre a mesa gasta do bar, posições e movimentos. Lembrou o conhaque com que enchia o cantil, as bolachas e o marmelo, o peso de seu fuzil, "um fuzil russo, mais alto que eu, muito ruim, que com dois tiros emperrava, sorte das bombas de mão". Mas em sua memória, embora haja mortos - "Às vezes tínhamos de enterrá-los porque cheiravam mal" -, Cirilo não mata ninguém, nem vê ninguém morrer. "Se você avança não pára porque alguém caiu, e se voltar, menos ainda; ninguém olha para trás."

O depoimento de Carranza, nascido em Barakaldo mas criado em Badalona, que se alistou como voluntário com 17 anos e, homem áspero mas honesto, continua fiel ao ideário revolucionário - "Quê? Você trabalhava no domingo? Que merda! Para isso fizemos a guerra?" -, é muito diferente do de outro veterano, de outra contenda, o alemão Peter Brill, 85 anos, piloto de caça da Luftwaffe na Segunda Guerra Mundial. Mas guarda pontos de contato em algo essencial: para ele também é difícil reconhecer que matou alguém.

No terraço de sua casa em Barcelona - curiosamente vizinha à de Jordi Pujol -, enquanto caem as sombras e revoa um par de morcegos, Brill evoca sua peripécia na Jagdgeschwader 77 (esquadrilha de caça). Começou seus vôos de combate na frente ocidental, nada menos que na operação Bodenplatte, o desesperado ataque de caças aos campos de pouso aliados na Bélgica e Holanda em janeiro de 1945. Depois passou para a frente leste.

O ex-piloto da Luftwaffe também lembra com pormenores, enquanto a brisa move suavemente as maquetes de aviões penduradas no quarto aberto para o terraço. Lembra a carlinga do Messerchmitt-109, que se fechava como um caixão. O conselho de "nunca ir para baixo" quando era perseguido por um Mustang, muito mais rápido ao picar. A ocasião em que o motor de seu avião parou a 8.000 metros sobre território russo, ou aquela em que os bombardeiros soviéticos se defenderam "lançando granadas de pára-quedas sobre nossos caças". Quarenta combates.

Não quer recordar se fez derrubadas até depois de um bom tempo de conversa. "Não digo!" então sim, quando a noite apagou seu interlocutor, chega a confidência: "Derrubei quatro russos. Os matei, com certeza. Você atira com tudo. O avião se destroça. Ninguém sai vivo. Não gosto de falar disso. Não estou orgulhoso."

O piloto octogenário, o velho soldado republicano... "A memória é o que a gente quer recordar", indica o historiador Ronald Fraser, autor de "Recuérdalo tú, y recuérdalo a otros" [Lembre você e lembre aos outros] (ed. Crítica), sobre a experiência de mais de 300 pessoas durante a Guerra Civil espanhola. "De todos esses entrevistados não encontrei nenhum que tivesse matado alguém", continua, agitando a cabeça enquanto bebe água no bar de seu hotel, durante uma visita a Barcelona. "É muito interessante, as pessoas não querem lembrar o que não é socialmente permitido." Como no caso de Carranza, de Brill ou daquele outro piloto, José Sandoval, ás da aviação republicana no comando de seu Chato, que nunca quis falar de suas derrubadas. "Sim, sim, é assim, muito curioso."

E é possível recuperar a memória global da história, com tanta lacuna? "Não, não há uma memória. A memória é subjetiva e individual. Cada um tem a sua. E é uma memória remodelada, uma rememória. Em boa parte, as pessoas montam suas próprias recordações. Não se pode confiar muito no relato objetivo. Mais nas motivações, porque se as pessoas não tivessem feito o que fizeram não teria acontecido o que aconteceu."

Para Fraser, a única materialização tangível da memória "são as fossas comuns, e mesmo nesse caso é preciso ir com muito cuidado, ser muito rigoroso. Já vi números muito exagerados em alguns lugares, em Valência, por exemplo. Deveria ser feito um controle refinado de tudo isso, em nível de Estado. Se não há um padrão, uma norma, cada região fará o seu a sua maneira e não conseguiremos cifras exatas e indiscutíveis".

Se as pessoas têm dificuldade para assumir seu passado, os países agem igualmente, ocultando ou negando os acontecimentos que para eles são traumáticos ou vergonhosos. Os japoneses insistem em ignorar sua responsabilidade e até negam a invasão da China. Os italianos deixavam passear de bicicleta por Roma o SS Erich Priebke, um dos carrascos das Fossas Ardeatinas.

Neste verão se viveu mais uma tentativa de fechar uma dessas grandes cicatrizes da memória que possui a vizinha França: o massacre de Oradour-sur-Glane, no Limousin. Em 10 de junho de 1944, efetivos da 2ª Divisão Panzer das Waffen-SS, a duríssima Das Reich, curtida e enrijecida na frente leste, assassinaram 642 pessoas - entre elas 245 mulheres, 207 crianças e o abade Chapelle, paradoxalmente partidário de Petain - e arrasaram a cidade em uma orgia de horror (chegou-se a atirar um menino ao forno do padeiro) vagamente justificada pelo suposto apoio da localidade à Resistência. Depois da guerra, na hora de julgar os fatos, a França se encontrou com a desagradável surpresa de que 14 dos SS acusados de participar do massacre eram alsacianos: 13 "Malgré nous" (incorporados à força ao exército nazista), mas também um voluntário. As sentenças foram muito brandas, o que provocou indignação por um lado, mas também o desagrado da Alsácia-Lorena, na consideração de que seus jovens tinham sido usados como bodes-expiatórios.

O assunto, a ponta do iceberg da participação francesa no exército de Hitler (47 mil alsacianos morreram ou desapareceram lutando sob as bandeiras nazistas no leste e um batalhão da Divisão das SS Carlos Magno, de voluntários franceses, esteve entre a nata dos defensores de Berlim), para não falar no colaboracionismo, continua sem estar totalmente resolvido. Os automóveis com placa dos departamentos da Alsácia foram tradicionalmente apedrejados em Oradour e no Limousin em geral, região onde os "maquisards" da Resistência foram muito castigados pelos nazistas (e não só ali: 105 homens acusados de fazer parte do maquis de Manises foram fuzilados em 12 de junho de 1944 nas Ardenas por um comando do 36º Regimento de Carros da Whermacht no qual também havia voluntários alsacianos).

Em seu livro sobre a sangrenta marcha da SS Das Reich através da França rumo à Normandia ("Das Reich", Pan Books, 1981), o historiador Max Hastings sugere que a conexão nacional com a chacina de Oradour poderia ser ainda mais sinistra: os nazistas teriam escolhido como alvo o povoado - um absurdo do ponto de vista militar - por causa de informações de uma fonte francesa ingênua ou mal-intencionada.

Em junho passado, no 64º aniversário do massacre, houve a enésima tentativa de reconciliação e do ato em memória das vítimas participaram Raphël Nisand, prefeito da alsaciana Schistigheim, que faz parte da comunidade urbana de Estrasburgo, e Jean Marie Bockel, que simbolicamente une a sua condição de secretário de Estado da Defesa e ex-combatente da Resistência o fato de ser alsaciano. Bockel reconheceu que é inegável que houve alsacianos que compartilharam a ideologia nazista, e ao mesmo tempo lembrou que entre os mártires de Oradour havia famílias alsacianas. O prefeito de Oradour, Raymond Frugier, é a favor da reconciliação, mas não muito antes teve de engolir o sapo de ver morrer de velhice, em sua cama e sem remorsos, com 86 anos, um dos piores sujeitos (e havia muitos), o sargento Heinz Barth, que se vangloriou diante de seu pelotão a caminho do povoado: "Hoje vocês vão ver correr sangue". Frugier disse: "Por crimes como esses uma pessoa não deveria ser perdoada".

Problemas com a memória como os de Oradour na França existem em todos os países. "Sim, claro", afirma Fraser. "A França não fez o que deveria fazer. Essas feridas demoram muito para sarar. Inclusive nos EUA de alguma maneira a brecha da Guerra Civil entre o norte e o sul se perpetuou por 150 anos. Na Espanha as feridas são maiores, especialmente entre os vencidos. Mas a sociedade espanhola está suficientemente madura para assimilar seu passado. É melhor assumir do que reprimir. Se não, sempre volta por caminhos inesperados."

Vocês, britânicos, também têm os seus, eu digo ao historiador; para não falar de que os incomodou ouvir que Montgomery era gay, aí está o recente problema com os gurkhas, as tropas mercenárias nepalesas que lutaram ferozmente pelo império e aos quais demoraram tanto a conceder direitos de cidadania. Inclusive dois vencedores da Segunda Guerra Mundial da Cruz de Vitória, a maior recompensa ao valor, Lachhiman Gurung, de 91 anos, e Tul Bahadur, de 86, tiveram de dar a cara e - como as legiões amotinadas do Reno diante de Germânico - mostrar suas cicatrizes nos tribunais.

Às vezes é mais fácil lutar com granadas contra os japoneses do que contra a memória fraca de um povo. "Sim, é incrível, essa gente que lutou na primeira linha por nós, tão valentes, e regateiam suas pensões. Na Grã-Bretanha temos outros casos: continuamos vivendo Dunquerque como uma vitória, quando foi uma grande derrota. Ou os bombardeios sobre a Alemanha: ainda se acredita que foram justificados, é difícil assumir que tanto sofrimento não serviu para encurtar a guerra. Esquecer, adaptar à memória a nossa conveniência, é uma reação humana comum, em nível mundial. Como você administra a memória tem a ver com o destino que tiveram as populações depois dos traumas. A Alemanha foi obrigada a assumir sua culpa em Nuremberg. Para o vencido a memória sempre é muito problemática."

Uma guerra fratricida é ruim para a memória. "E mais que isso. Na Espanha houve um grande silêncio entre os que a viveram. Ninguém falava disso com seus filhos. Silêncio e esquecimento. Creio que em seu foro íntimo, com o passar dos anos, todos, inclusive os vencedores, pensavam que nada valia a pena uma guerra civil. Agora parece que as pessoas estão dispostas a falar. Mas nunca se poderá fazer uma recuperação total. É preciso assumir as feridas que restaram do conflito."

Fraser duvida quando lhe pergunto se confrontar as pessoas com sua memória, fazê-las recordar, tem um valor catártico: "Eu não saberia dizer, mas houve um caso, um capitão de artilharia que eu entrevistei e que participou da tomada do Quartel de la Montaña. Depois de lembrar tudo, sofreu um infarto. Imagine, um homem que havia sobrevivido à guerra e eu quase o matei ao fazê-lo recordar."

quinta-feira, 17 de junho de 2010

A última religião

O materialista é um fiel cultor do Deus-nada. A sua ausência é presença e a sua presença é ausência; em vez de ligar todas as coisas, Ele separa todas as coisas; em vez de mover a tudo, a tudo mantém imóvel.

O mito da atualidade é o Deus-nada, Ele não se importa, não requer, não avisa, não espera, não pode, não ordena e não cria. Ele é o Deus-não.

Como todo Deus único, o Deus-não não aceita a existência de outras forças que determinem o mundo diferente de sua não-vontade.

Na religião do Deus-não, eu como fiel sou cético; eu não creio, não sinto, não dependo, não quero e não preciso.

des-amén e vamos nos consumir!