O vovô está muito parado hoje.
Está olhando pela janela desde manhã.
Eu olhei também, mas não consegui ver o que ele vê.
Às vezes ele sorri sem tirar os olhos de lá.
Aí eu olho de novo... mas nada.
Perguntei à mamãe e ela disse que é para eu ir cuidar de coisas de crianças.
E deixar as coisas de velho prá lá.
Por mais chato que seja olhar para o Jeb parado lá a manhã toda,
Quando ele sorri, parece que alguém está puxando e abrindo as cortinas para um belo espetáculo começar.
O que não faria sentido seria sorrir assim ao final do espetáculo.
Eu odeio a minha vida.
A voz doce da minha mãe me enjoa como um melaço tomado no bico da garrafa.
O olhar cuidadoso de meu pai me cerca e me oprime.
Eis que um dia conheço o amor.
A lua reflete-se na água, a água ondula com o vento e o vento brinca com teu vestido.
Tu diz-me 'Vem' e é como se o tempo também fosse contigo, lento, lentíssimo.
E de repente,
Tudo acelerado. Rodopiam. Gritam. Se esfregam. Cospem. Chafurdam.
E eu com eles. Eu sou eles. Não busco mais nada. Tampouco fujo. Fico ao vento.
E o vento me assopra. Mas persisto altivo. Me bajula, persisto. Me vira o rosto, me rio.
E eis que desiste. E por um instante sinto o sol arder em meu rosto, antes que a noite fria, acelerada, me abrace, dizendo-me que ela, e só ela, será minha companheira até o fim.
Sinto saudades. Sinto tristeza. Sinto culpa. Por isso não sinto mais nada.
Apenas um leve incômodo em meus cotovelos há tanto tempo apoiados no parapeito da janela.
E lembranças que me assaltam furtivas, brincalhonas, saudosas de mim.
E meu neto a me olhar, curioso, como se quisesse adivinhar o que vejo.
Ora o que vejo...
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terça-feira, 7 de janeiro de 2014
segunda-feira, 15 de julho de 2013
Realista ou pessimista?
No meio da dor de Jacira corria um rio,
De águas lentas, frias e escuras.
- Pedro, fico surpresa que você tenha vindo.
- É bom ver os ares renovados. Agora há liberdade...
- Não desrespeite a memória de seu finado avô. É só o que me resta.
- Vejo que as paredes desta casa têm contas a acertar contigo. Boa sorte ;)
------
Preso nos dentes do riso Beti, o que ainda não nasceu se manifesta,
A pureza, a inocência, a intensidade e a ignorância do que a espera.
- Te desafio, liberte-me e me possua ao mesmo tempo.
- Não sabes o que dizes. Buscas no lugar errado o que não te cabe.
- Sei que não podes dar o que não possuis. Mas também não possuo o que dou.
- Seca a fonte, não haverá sede ou saciedade, só terás lembranças.
----
Escolhe:
Palavras pobres em um coração de ouro,
Ou palavras de ouro e o hálito da morte?
- Não posso te ajudar agora, estou ocupado.
- Você não se preocupa comigo, só eu que te amo e cuido de ti,
- Ponho o pão em casa, te dei um filho e te faço mulher. Não tens do que reclamar.
- Eu oro pela tua alma e pela purificação de teu corpo. Que a luz divina te fulmine no coração.
-----
Paulo só viveu. Um relógio de ferro. E casa. E trabalho,
Não teve um só dia que deixou de ouvir um 'boa noite' antes de dormir,
Otávio viveu só. Sim, teve paixões desenfreadas que o levaram a ruína,
Ao fim, duvidava de sua coragem como alguém duvida de sua inconsciência.
- Meu amigo... tive de dormir fora de casa. Mariana pôs fogo em minha cama e lençóis.
- Se tu tivesses uma Amália como eu, Otávio, o fogo seria apenas para esquentar tua sopa à noite.
- Há quantos meses ela não te dá? Já te acostumaste?
- Hummm... Acho que está sendo mais fácil para mim do que foi para ti, quando ela me escolheu.
-----
Miguel? Foi forjado. Tal qual espada, entre o calor do amor e o gélido ódio,
Mas quanto mais afiada ficava essa espada, mais o couro a continha,
Maria, improvável adolescente, retirou-a da bainha. Cintilou no ar seu aço puro,
Que foi imediatamente destruído por um feitiço lunar: 'Toma Lá Teu Destino, Dá Cá Teu Coração'.
- Há tanto tempo me esperas, e logo agora eu te falto?
- Não esperava muito de ti, dessa tua pureza que não lutou batalhas.
- Mas eu esperava a tua mão, para que ela nos conduzisse à floresta encantada.
- Besteira. Não há mais floresta, não há mais encanto, não há mais espera.
De águas lentas, frias e escuras.
- Pedro, fico surpresa que você tenha vindo.
- É bom ver os ares renovados. Agora há liberdade...
- Não desrespeite a memória de seu finado avô. É só o que me resta.
- Vejo que as paredes desta casa têm contas a acertar contigo. Boa sorte ;)
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Preso nos dentes do riso Beti, o que ainda não nasceu se manifesta,
A pureza, a inocência, a intensidade e a ignorância do que a espera.
- Te desafio, liberte-me e me possua ao mesmo tempo.
- Não sabes o que dizes. Buscas no lugar errado o que não te cabe.
- Sei que não podes dar o que não possuis. Mas também não possuo o que dou.
- Seca a fonte, não haverá sede ou saciedade, só terás lembranças.
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Escolhe:
Palavras pobres em um coração de ouro,
Ou palavras de ouro e o hálito da morte?
- Não posso te ajudar agora, estou ocupado.
- Você não se preocupa comigo, só eu que te amo e cuido de ti,
- Ponho o pão em casa, te dei um filho e te faço mulher. Não tens do que reclamar.
- Eu oro pela tua alma e pela purificação de teu corpo. Que a luz divina te fulmine no coração.
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Paulo só viveu. Um relógio de ferro. E casa. E trabalho,
Não teve um só dia que deixou de ouvir um 'boa noite' antes de dormir,
Otávio viveu só. Sim, teve paixões desenfreadas que o levaram a ruína,
Ao fim, duvidava de sua coragem como alguém duvida de sua inconsciência.
- Meu amigo... tive de dormir fora de casa. Mariana pôs fogo em minha cama e lençóis.
- Se tu tivesses uma Amália como eu, Otávio, o fogo seria apenas para esquentar tua sopa à noite.
- Há quantos meses ela não te dá? Já te acostumaste?
- Hummm... Acho que está sendo mais fácil para mim do que foi para ti, quando ela me escolheu.
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Miguel? Foi forjado. Tal qual espada, entre o calor do amor e o gélido ódio,
Mas quanto mais afiada ficava essa espada, mais o couro a continha,
Maria, improvável adolescente, retirou-a da bainha. Cintilou no ar seu aço puro,
Que foi imediatamente destruído por um feitiço lunar: 'Toma Lá Teu Destino, Dá Cá Teu Coração'.
- Há tanto tempo me esperas, e logo agora eu te falto?
- Não esperava muito de ti, dessa tua pureza que não lutou batalhas.
- Mas eu esperava a tua mão, para que ela nos conduzisse à floresta encantada.
- Besteira. Não há mais floresta, não há mais encanto, não há mais espera.
domingo, 26 de maio de 2013
- Você olhou? - Eu olhei.
1o Ato: Alvorada.
Olhei sem pretensão,
Olhei com curiosidade,
Olhei com cobiça,
Olhei com paixão,
Olhei com receio,
Olhei com surpresa: por que natimorto?
2o Ato: Penumbra.
Olhei para longe,
Olhei novamente,
Olhei com desejo,
Olhei com distância,
Olhei com dúvida,
Olhei crédulo da ressurreição.
3o Ato: Aurora.
Olhei os desacertos,
Olhei o acolhimento,
Olhei o lar, e,
Olhei em paz,
Olhei o futuro,
Olhei sem ver.
4o Ato: Crepúsculo.
Olhei com tristeza,
Olhei a procura de explicações,
Olhei por culpados,
Olhei com saudade,
Olhei com gratidão,
Depois não olhei mais.
Olhei sem pretensão,
Olhei com curiosidade,
Olhei com cobiça,
Olhei com paixão,
Olhei com receio,
Olhei com surpresa: por que natimorto?
2o Ato: Penumbra.
Olhei para longe,
Olhei novamente,
Olhei com desejo,
Olhei com distância,
Olhei com dúvida,
Olhei crédulo da ressurreição.
3o Ato: Aurora.
Olhei os desacertos,
Olhei o acolhimento,
Olhei o lar, e,
Olhei em paz,
Olhei o futuro,
Olhei sem ver.
4o Ato: Crepúsculo.
Olhei com tristeza,
Olhei a procura de explicações,
Olhei por culpados,
Olhei com saudade,
Olhei com gratidão,
Depois não olhei mais.
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terça-feira, 18 de setembro de 2012
Adoro mistureba!
Adoro mistureba. E esse mestre fez uma bem legal
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sábado, 9 de outubro de 2010
Hoje eu arrebento. Arrebendo a inércia e torpor que me envolvem e me impedem de fazer. Hoje quero ser "homo fabris". Passa o dia e me encontro com o meu desejo parcialmente realizado. O que é um desejo parcialmente realizado? Isto depende de tuas expectativas. Se depositavas em teu objeto de desejo expectativas de felicidades próprias, elas eram irreais e desleais com a subjetividade dele... sim, o que é inegável objeto para ti, é sujeito para si próprio. Como aposto que te consideras um sujeito quando páras para pensar, embora no dia a dia te trates tanto como objeto quanto tratas aos outros sujeitos. Isso afinal não interessa. E quanto à frustração que te faz diferenciar uma coisa da outra, ela é a tua origem e te acompanha. Sofra, odeie, e assim estarás irmanado em dor com aqueles próximos-distantes-próximos que, sendo ilhas, submergem e emergem todos do mesmo mar de incompreensôes e impotência que você.
quinta-feira, 17 de junho de 2010
A última religião
O materialista é um fiel cultor do Deus-nada. A sua ausência é presença e a sua presença é ausência; em vez de ligar todas as coisas, Ele separa todas as coisas; em vez de mover a tudo, a tudo mantém imóvel.
O mito da atualidade é o Deus-nada, Ele não se importa, não requer, não avisa, não espera, não pode, não ordena e não cria. Ele é o Deus-não.
Como todo Deus único, o Deus-não não aceita a existência de outras forças que determinem o mundo diferente de sua não-vontade.
Na religião do Deus-não, eu como fiel sou cético; eu não creio, não sinto, não dependo, não quero e não preciso.
des-amén e vamos nos consumir!
O mito da atualidade é o Deus-nada, Ele não se importa, não requer, não avisa, não espera, não pode, não ordena e não cria. Ele é o Deus-não.
Como todo Deus único, o Deus-não não aceita a existência de outras forças que determinem o mundo diferente de sua não-vontade.
Na religião do Deus-não, eu como fiel sou cético; eu não creio, não sinto, não dependo, não quero e não preciso.
des-amén e vamos nos consumir!
sexta-feira, 24 de agosto de 2007
A muralha da beleza

Por que a beleza de Monica a incomoda tanto? Depois de ter feito dois filmes onde aborda a violência que a (sua) beleza provoca, tendo sido (sua personagem) humilhada em “Malena” e, outra, estuprada durante 15' em “Irreversível”, ela diz em entrevista, ter ficado tentada com uma proposta de filmar um pornô Cult (embora o diretor que propôs seja famoso e reconhecido, a reportagem grafava “Cult”, assim mesmo, com aspas, entenderam, né, o que eles quiseram dizer...).
A Bela agora provoca o malditoso e leproso (porque assim que a Sociedade que consome os filmes trata quem lida com eles) cinema pornô. Quer provocar porque diz que quer fazer o filme em vez de filmar e “ter a fita roubada” como fizeram várias personalidades femininas da atualidade para ficar (mais) famosas.
Monica enfim, parece que suplica, exige, desesperadamente, que a vejam como ela é, para além de sua cegante beleza. Busca o ódio porque lhe parece o sentimento mais humanizador que poderiam ter por ela. Mais do que a adoração e reverência que sua beleza lhe traz.
Eu adaptaria para ela o que o personagem de Robin Willians diz para o de Matt Damon em “Gênio Indomável”: Voce não tem culpa; VOCE não tem culpa, VOCE NÃO tem culpa, VOCE NÃO TEM culpa, VOCE NÃO TEM CULPA DA SUA BELEZA.
Enfim, hip hip hurra, a essa maravilhosa - em tantos sentidos: MULHER.
A Bela agora provoca o malditoso e leproso (porque assim que a Sociedade que consome os filmes trata quem lida com eles) cinema pornô. Quer provocar porque diz que quer fazer o filme em vez de filmar e “ter a fita roubada” como fizeram várias personalidades femininas da atualidade para ficar (mais) famosas.
Monica enfim, parece que suplica, exige, desesperadamente, que a vejam como ela é, para além de sua cegante beleza. Busca o ódio porque lhe parece o sentimento mais humanizador que poderiam ter por ela. Mais do que a adoração e reverência que sua beleza lhe traz.
Eu adaptaria para ela o que o personagem de Robin Willians diz para o de Matt Damon em “Gênio Indomável”: Voce não tem culpa; VOCE não tem culpa, VOCE NÃO tem culpa, VOCE NÃO TEM culpa, VOCE NÃO TEM CULPA DA SUA BELEZA.
Enfim, hip hip hurra, a essa maravilhosa - em tantos sentidos: MULHER.
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