A menina estava sozinha, sem seus brinquedos, ansiando por alguém.
O menino era ainda mais só. As mãos fortes esfarelavam o que desejasse.
Se conheceram, e na praia, deram um mergulho fundo, e algumas tragadas de ar.
A vida berrou-lhes nos ouvidos, dos quais escorria uma aquecida água do mar.
Mas logo haveria de calar-se, pois os calados eram ainda mais profundos que o mar.
O novo capitão, para passar melhor o tempo, esmerou-se na construção de um boneco. Expirou-lhe o espírito. Tornou-se ventríloco.
Antes mesmo de partir, testou a fala. Soava real. Até para si mesmo.
Buscou o Oriente e suas maravilhas. Encontrou uma de cabelos dourados. O espírito hesitou pois já não reconhecia bem a casa.
Partiu, pois o mundo lhe chamava. Mas nenhum porto o contentava. Rezou por ajuda.
- Sim, respondeu-lhe a silhueta de um fantasma espelhada na água: menos luz vai te fazer bem.
- Por que não? pensou o boneco. Mas mandou o ventríloquo em seu lugar.
Viveu algumas aventuras, mas tempos depois, num dia distraído, saltou-lhe por cima seu senhor, dominou-o, e sem explicar, deu-lhe o mesmo remédio.
Saído assim rápido da penumbra, seus olhos se incandesceram. O sol beijou-lhe a boca salgada e lambeu-lhe o pescoço forte. Parecia que não anoiteceria mais.
Num dia de outono porém, anunciou-se uma penumbra, envolveu-lhe e ao navio, por sobre ela vinha o boneco, trazendo uma mordaça de ferro dourado na qual pode ver horrorizado o seu nome escrito. Imobilizado. O boneco colocou-lhe no colo, e pôs-se a falar por ele. E por onde passava, era aclamado pelo seu engenho.
Um mal destino se desenhava, mas em suas navegações tinham se aproximado demais do Pólo Norte, e o magnetismo mostrou-se intenso, extenuante, implacável, e a velha mordaça cedeu.
Quem diria que justamente por estas frestas pudesse entrar algo tão suave. Era um veneno ou era um remédio?
Dependia da dose, claro. E acima não foi um bom negócio...
Acabou por matar o boneco.
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sexta-feira, 20 de junho de 2014
sábado, 20 de julho de 2013
quarta-feira, 15 de maio de 2013
sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
segunda-feira, 21 de janeiro de 2013
quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
A criança envenena o velho.
Anatole queria ser
engenheiro,
Rebeca queria ser
médica,
Domenico queria ser
empresário,
Jadirson queria ser
arqueólogo,
Eu queria ser.
Mas eu não era?
Desisti de ser,
Decidi que eu queria
ter.
Anatole queria ter uma
mulher-princesa,
Rebeca queria ter uma
casa na praia,
Domenico queria ter um
carro conversível,
Jadirson queria ter uma
biblioteca.
Eu queria ter.
Mas eu tinha.
Desisti de ter.
Decidi que eu queria
entender.
Anatole agora queria
entender porque sua mulher não o entendia,
Rebeca queria entender
porque sua casa não era um lar,
Domenico queria
entender porque seu conversível não o levava aonde ele mais precisa
ir,
Jadirson queria
entender porque que o conhecimento dos livros serve e não serve ao
mesmo tempo.
Eu queria entender.
Mas não entendia.
Desisti de entender.
Decidi que queria
esquecer.
Anatole queria esquecer
que os corações sangram bem mais sangue do que há no corpo,
Rebeca queria esquecer
quem a esqueceu,
Domenico queria
esquecer que os seus bens eram agora os seus senhores,
Jadirson queria
esquecer que o passado esquecido é destino.
Eu queria esquecer...
Consciência.
Ecoam fantasmas dos quentes sonhos sonoros,
Da criança que envenena o velho,
Que não é,
Que não tem,
Que não
entendeu,
Que não esqueceu.
segunda-feira, 12 de novembro de 2012
quinta-feira, 25 de outubro de 2012
terça-feira, 4 de setembro de 2012
Olhos de neon
Espelhos d'água para um mergulho rápido;
Águas caribenhas com peixinhos plim;
Apenas olhos de um neon azul pueril;
Dados a vagar devagar demais;
Adormecido o dia, enfastiado da beleza,
Deram de beber aos gênios das garrafas,
E reconciliaram Deus e o Diabo,
Que decidiram morar juntos,
E tiveram um monte de filhinhos,
E enquanto Deus cozinha,
Medita na beleza nada pueril de sua família.
quinta-feira, 24 de junho de 2010
- Ei, tu aí, senhor(a) de si!
Veja a unha:
ela sobe e desde,
sobe e desce,
e no movimentar-se do dedo
ela sinaliza chamando para vires ao mundo meu,
ou ir-te ao mundo teu, mas - idiota,
- puta que pariu! - sai da porra de cima deste muro,
antes que minha unha insana em ti se crave
laboriosa e criadora de purulenta ferida
a causar pútrida chaga em tua leitosa consciência hipócrita e presunçosa;
antes que o dia se acabe
com minha unha traçando no céu linhas vertiginosas do teu destino alado,
deposto e encarcerado,
na caixinha de lembranças na qual pensas escondê-lo,
para que ninguém o leve,
como se alguém pudesse querer algo nessas condições tão desgraçadas;
ó bardo beduíno de alma exilada no monumental, ainda não sepulcral,
deserto onde florescem, frutificam e desabrocham,
em mirabolante quantidade e qualidade,
todas as tuas espécies proprietárias de princípios morais e de honra,
mas é lugar triste, onde vagam almas e fantasmas,
assombrando uns aos outros,
onde não se concebem lágrimas ou gargalhadas,
para fender o solo seco do teu coração,
suportado pelo subsolo de água parada que se recusa a subir,
e que lentamente apodrece a tua vida.
se fosses apenas alguém superficial,
os cuidados obsequiosos com o corpo disfarçariam o cheiro!
ela sobe e desde,
sobe e desce,
e no movimentar-se do dedo
ela sinaliza chamando para vires ao mundo meu,
ou ir-te ao mundo teu, mas - idiota,
- puta que pariu! - sai da porra de cima deste muro,
antes que minha unha insana em ti se crave
laboriosa e criadora de purulenta ferida
a causar pútrida chaga em tua leitosa consciência hipócrita e presunçosa;
antes que o dia se acabe
com minha unha traçando no céu linhas vertiginosas do teu destino alado,
deposto e encarcerado,
na caixinha de lembranças na qual pensas escondê-lo,
para que ninguém o leve,
como se alguém pudesse querer algo nessas condições tão desgraçadas;
ó bardo beduíno de alma exilada no monumental, ainda não sepulcral,
deserto onde florescem, frutificam e desabrocham,
em mirabolante quantidade e qualidade,
todas as tuas espécies proprietárias de princípios morais e de honra,
mas é lugar triste, onde vagam almas e fantasmas,
assombrando uns aos outros,
onde não se concebem lágrimas ou gargalhadas,
para fender o solo seco do teu coração,
suportado pelo subsolo de água parada que se recusa a subir,
e que lentamente apodrece a tua vida.
se fosses apenas alguém superficial,
os cuidados obsequiosos com o corpo disfarçariam o cheiro!
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