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sexta-feira, 20 de junho de 2014

Sem título.

A menina estava sozinha, sem seus brinquedos, ansiando por alguém.

O menino era ainda mais só. As mãos fortes esfarelavam o que desejasse.

Se conheceram, e na praia, deram um mergulho fundo, e algumas tragadas de ar.

A vida berrou-lhes nos ouvidos, dos quais escorria uma aquecida água do mar.

Mas logo haveria de calar-se, pois os calados eram ainda mais profundos que o mar.

O novo capitão, para passar melhor o tempo, esmerou-se na construção de um boneco. Expirou-lhe o espírito. Tornou-se ventríloco.

Antes mesmo de partir, testou a fala. Soava real. Até para si mesmo.

Buscou o Oriente e suas maravilhas. Encontrou uma de cabelos dourados. O espírito hesitou pois já não reconhecia bem a casa.

Partiu, pois o mundo lhe chamava. Mas nenhum porto o contentava. Rezou por ajuda.

- Sim, respondeu-lhe a silhueta de um fantasma espelhada na água: menos luz vai te fazer bem.

- Por que não? pensou o boneco. Mas mandou o ventríloquo em seu lugar.

Viveu algumas aventuras, mas tempos depois, num dia distraído, saltou-lhe por cima seu senhor, dominou-o, e sem explicar, deu-lhe o mesmo remédio.

Saído assim rápido da penumbra, seus olhos se incandesceram. O sol beijou-lhe a boca salgada e lambeu-lhe o pescoço forte. Parecia que não anoiteceria mais.

Num dia de outono porém, anunciou-se uma penumbra, envolveu-lhe e ao navio, por sobre ela vinha o boneco, trazendo uma mordaça de ferro dourado na qual pode ver horrorizado o seu nome escrito. Imobilizado. O boneco colocou-lhe no colo, e pôs-se a falar por ele. E por onde passava, era aclamado pelo seu engenho.

Um mal destino se desenhava, mas em suas navegações tinham se aproximado demais do Pólo Norte, e o magnetismo mostrou-se intenso, extenuante, implacável, e a velha mordaça cedeu.

Quem diria que justamente por estas frestas pudesse entrar algo tão suave. Era um veneno ou era um remédio?

Dependia da dose,  claro. E acima não foi um bom negócio...

Acabou por matar o boneco.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

A Grande Beleza (texto baseado no filme)

O vovô está muito parado hoje.
Está olhando pela janela desde manhã.
Eu olhei também, mas não consegui ver o que ele vê.

Às vezes ele sorri sem tirar os olhos de lá.
 Aí eu olho de novo... mas nada.
Perguntei à mamãe e ela disse que é para eu ir cuidar de coisas de crianças.
E deixar as coisas de velho prá lá.

Por mais chato que seja olhar para o Jeb parado lá a manhã toda,
Quando ele sorri, parece que alguém está puxando e abrindo as cortinas para um belo espetáculo começar.
O que não faria sentido seria sorrir assim ao final do espetáculo.

Eu odeio a minha vida.
A voz doce da minha mãe me enjoa como um melaço tomado no bico da garrafa.
O olhar cuidadoso de meu pai me cerca e me oprime.

Eis que um dia conheço o amor.
A lua reflete-se na água, a água ondula com o vento e o vento brinca com teu vestido.
Tu diz-me 'Vem' e é como se o tempo também fosse contigo, lento, lentíssimo.
E de repente,

Tudo acelerado. Rodopiam. Gritam. Se esfregam. Cospem. Chafurdam.
E eu com eles. Eu sou eles. Não busco mais nada. Tampouco fujo. Fico ao vento.
E o vento me assopra. Mas persisto altivo. Me bajula, persisto. Me vira o rosto, me rio.
E eis que desiste. E por um instante sinto o sol arder em meu rosto, antes que a noite fria, acelerada, me abrace, dizendo-me que ela, e só ela, será minha companheira até o fim.

Sinto saudades. Sinto tristeza. Sinto culpa. Por isso não sinto mais nada.
Apenas um leve incômodo em meus cotovelos há tanto tempo apoiados no parapeito da janela.
E lembranças que me assaltam furtivas, brincalhonas, saudosas de mim.
E meu neto a me olhar, curioso, como se quisesse adivinhar o que vejo.

Ora o que vejo...

domingo, 1 de dezembro de 2013

Sou homem e amo...no futebol!

Vivemos numa cultura na qual é difícil para a maioria dos homens expressar o que sente. Afinal, podemos sentir qualquer coisa como apego, dedicação, confiança, esperança, dúvida, medo, tristeza, amor etc.

Com o tempo, alguns com mais, outros com menos, vamos aprendendo a expressar nossos sentimentos, um pouco com nossos pais, mais espontaneamente com nossas mulheres, mais naturalmente com nossos filhos. Mas expressar em público, perante outros homens, continua sendo um tabu.

Sentimentos relativos à sensibilidade e à fragilidade parecem ter sido reservados apenas às mulheres, como se os homens não sentissem tal coisa. Daí vem toda aquela ladaínha de "viadinho", "mulherzinha" etc. com a qual brincamos ou xingamos outros homens ainda que não tenhamos colocado em xeque sua opção sexual. Com isso estamos sendo papagaios de uma cultura herdada sobre a qual talvez não tenhamos refletido sobre o quanto realmente ela é importante para nós ou não.

Mas os sentimentos não são uma dimensão pessoal que possa ser simplesmente ignorada e, nesse momento podemos dizer: Ainda bem que temos o futebol!

No futebol - e alguns homens talvez apenas no futebol - podemos ser livres. Podemos abandonar a racionalidade e sentir. Podemos abandonar o utilitarismo e termos orgulho de sermos leais a um time ainda que ele só nos traga tristezas, vivendo um nobre sentimento de fidelidade.

No futebol podemos acreditar em um time, confiar que ele vai vencer, ainda que contra as probabilidades. Somos, portanto, homens de esperança, aquela esperança que muitas vezes não nos permitimos num dia a dia duro e frustrante.

No futebol podemos abraçar nossos amigos e pular de alegria sem que sejamos chamados de "bichas". No futebol podemos chorar de tristeza, como crianças, sem ser xingados de "maricas".

Mas, acima de tudo, no futebol podemos amar. É nesse ambiente, é sobre esse fundamento e é nessas oportunidades que podemos nos permitir viver, publicamente, os sentimentos do amor.

O amor ao time. Ainda que um amor-guerreiro que muitas vezes depende da negação do time adversário para encontrar a própria identidade e o próprio valor. Mas é amor.

É amor porque no futebol, como torcedores, somos todos iguais e abandonamos a questão do poder. Ninguém é mais que ninguém e todos os torcedores são iguais e estão no mesmo barco, amarrados ao mesmo sentimento e destino.

É um amor indulgente, que nos liberta do fardo de lidar com a ambiguidade do amor-ódio que anda sempre presente. Amamos o nosso time, odiamos o adversário clássico, e isso basta.

É amor porque nos tira completamente da indiferença com que normalmente olhamos para tudo o que não nos atinge em nossos interesses individuais. Como torcedor, nada em meu time pode me prejudicar ou beneficiar diretamente: não me deixa mais rico ou mais pobre e não tem efeitos materiais sobre mim.

Mas que estrago faz em meu espírito e humor quando perde. E como enche o meu peito de alegria quando ganha. Ilumina ou escurece minha vida e posso contar isso, de boca cheia, para quem quiser ouvir. E vou ser aceito em meus sentimentos se expressá-los como torcedor.

O ciúme da mulher (do torcedor) pelo tempo roubado, pelo brilho nos olhos que não vem dela, também atesta que é uma relação de amor. Imagino que deva existir um sentimento dúbio no coração da mulher de um torcedor: feliz por vê-lo sentir, triste por não ser a causa.

Afinal, se não fosse amor, seria o que? Qual o sentido de um jogo ocupar tanto das vidas, do tempo e dos nossos recursos? Mas se é a chance de sentirmos, de cantarmos, de gritarmos (bora soltar os bichos e viva ao banho de sol para os demônios interiores), de chorarmos, de amarmos, aí tudo bem porque por amor, vale tudo.

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Uma leitura interessante sobre o tema da fragilidade, para homens e mulheres, é o Livro "Fragilidade"de Jean - Claude Carriére. Ed. Objetiva.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Realista ou pessimista?

No meio da dor de Jacira corria um rio,
De águas lentas, frias e escuras.

- Pedro, fico surpresa que você tenha vindo.
- É bom ver os ares renovados. Agora há liberdade...
- Não desrespeite a memória de seu finado avô. É só o que me resta.
- Vejo que as paredes desta casa têm contas a acertar contigo. Boa sorte ;)

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Preso nos dentes do riso Beti, o que ainda não nasceu se manifesta,
A pureza, a inocência, a intensidade e a ignorância do que a espera.

- Te desafio, liberte-me e me possua ao mesmo tempo.
- Não sabes o que dizes. Buscas no lugar errado o que não te cabe.
- Sei que não podes dar o que não possuis. Mas também não possuo o que dou.
- Seca a fonte, não haverá sede ou saciedade, só terás lembranças.

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Escolhe:
Palavras pobres em um coração de ouro,
Ou palavras de ouro e o hálito da morte?

- Não posso te ajudar agora, estou ocupado.
- Você não se preocupa comigo, só eu que te amo e cuido de ti,
- Ponho o pão em casa, te dei um filho e te faço mulher. Não tens do que reclamar.
- Eu oro pela tua alma e pela purificação de teu corpo. Que a luz divina te fulmine no coração.

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Paulo só viveu. Um relógio de ferro. E casa. E trabalho,
Não teve um só dia que deixou de ouvir um 'boa noite' antes de dormir,
Otávio viveu só. Sim, teve paixões desenfreadas que o levaram a ruína,
Ao fim, duvidava de sua coragem como alguém duvida de sua inconsciência.

- Meu amigo... tive de dormir fora de casa. Mariana pôs fogo em minha cama e lençóis.
- Se tu tivesses uma Amália como eu, Otávio, o fogo seria apenas para esquentar tua sopa à noite.
- Há quantos meses ela não te dá? Já te acostumaste?
- Hummm... Acho que está sendo mais fácil para mim do que foi para ti, quando ela me escolheu.

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Miguel? Foi forjado. Tal qual espada, entre o calor do amor e o gélido ódio,
Mas quanto mais afiada ficava essa espada, mais o couro a continha,
Maria, improvável adolescente, retirou-a da bainha. Cintilou no ar seu aço puro,
Que foi imediatamente destruído por um feitiço lunar: 'Toma Lá Teu Destino, Dá Cá Teu Coração'.

- Há tanto tempo me esperas, e logo agora eu te falto?
- Não esperava muito de ti, dessa tua pureza que não lutou batalhas.
- Mas eu esperava a tua mão, para que ela nos conduzisse à floresta encantada.
- Besteira. Não há mais floresta, não há mais encanto, não há mais espera.

domingo, 26 de maio de 2013

- Você olhou? - Eu olhei.

1o Ato: Alvorada.

Olhei sem pretensão,
Olhei com curiosidade,
Olhei com cobiça,
Olhei com paixão,
Olhei com receio,
Olhei com surpresa: por que natimorto?

2o Ato: Penumbra.

Olhei para longe,
Olhei novamente,
Olhei com desejo,
Olhei com distância,
Olhei com dúvida,
Olhei crédulo da ressurreição.

3o Ato: Aurora.

Olhei os desacertos,
Olhei o acolhimento,
Olhei o lar, e,
Olhei em paz,
Olhei o futuro,
Olhei sem ver.

4o Ato: Crepúsculo.

Olhei com tristeza,
Olhei a procura de explicações,
Olhei por culpados,
Olhei com saudade,
Olhei com gratidão,
Depois não olhei mais.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

O ciclo.

Pauline é jovem.
Em seus ouvidos, promessas.
Em sua mente, poder.
Em seus olhos, sonhos.
Seu corpo é belo e forte.
E seus pensamentos são ágeis.

Mas Pauline também é Pedro. É Pauline-Pedro.
Eles moram e dançam juntos todo dia.

Há todavia um conflito.

Pedro quer viver acima. Ele é firme, claro em seus propósitos, usa a razão e almeja a transcendência.

Pauline quer viver abaixo. Ela emociona-se, flui, é obscura e lhe apetecem as necessidades. Acredita que daqui a 20 anos estará só, fazendo seus próprios movimentos. A sua outra metade terá sumido.

- Dancemos por amor e misturemos tudo, Pedro. Amor e dor, beleza, sofrimento e solidão.
- Dancemos até que o amor acabe. Acho que vou contar até 5.

5
4
3
2
1

Pedro-Pauline imergem.
.................................................................................................................................

Era uma vez, num reino muito, muito distante...

Quando Pedro ainda não era Pedro-Pauline e não era nem mesmo Pedro, apenas fluía no mar.

Veio então esta forma que chamamos de corpo e o diferenciou.

E passou a existir Pedro, que corria como o cão e usava uma coleira que era só sua. Não se perguntava por que a usava, nem se podia parti-la. Cria que seu destino o esperava, mas rodeava resoluto sem ir aos confins onde ficava aquilo sei lá o que que desejava.

O tempo passou e o discurso do  "nunca irei lá" passou a ser intercalado com o ato mais belo de ficar amarrado a beira de uma corda, com o corpo alongado como uma espada que todavia não desfere no mundo o golpe fatal de que é capaz. Ocupava um ângulo ruim de visão e não via quem havia partido e agora passeava lá fora com flores. Até a noite em que teve um sonho.

Tentavam enterrar viva sua irmã, mas ela continuava a dançar e não parava nem quando lhe entrava terra pela boca. Ela dançava por amor, e deixava um rastro, fazia um eco, pintava um retrato único e o assinava E dizia: Dance voce também!

No dia seguinte, Pauline aconteceu a Pedro.

Mas muito antes disso, num outro reino distante, Pauline não era ainda Pauline...

Havia recebido um belo corpo e com ele flutuava em águas profundas e turvas, e para amar, tentava fazer curvas. Todo dia ela fazia tudo igual, e variava entre a inconsciência e um tédio mortal. Não havia beleza, e para piorar, ela tinha finalmente cansado dos mimos  - jóias, roupas, viagens - que caíam a seus pés.

À noite, quando fechava os olhos, sonhava o doce canto de Sua confortável vida e renegava essa amante espúria, gasta e inconstante que é a Vida.

Numa segunda-feira, passeando por um sinuoso e pouco frequentado caminho do parque, Pauline tropeçou em Pedro. E não levantou mais.

...............................

Emerge Pedro.
Emerge Pauline.

Projetam-se no ar.
Artérias límpidas de uma natureza forte.
O ar pouco lhes resiste.
Assim, pois, avançam.

Mas logo à frente uma rocha fria e insuperável os espera.
Que importa, se agora todos são, cantam, dançam e estão livres?
Será uma linda explosão.
E Pauline espalhará seus corpúsculos aquáticos por sobre todos a quem tocou.

Pedro também fará do mesmo modo.
E muito outros, milhares e milhões.
Milhares de almas se esfacelando em seu gozo final, a cada expiração.
Guiadas pelas mesmas forças que as criaram.
Fazem radiante e sublime espetáculo.

Inspira, e a água aglutina-se, escorre e retorna à fonte.
Expira, e a água desintegra-se, borrifa e retorna da Fonte.



quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

A unha não perdoa os equilibristas.


Cuidado com a unha encarnada em meu fura-bolo,
Ela comanda um sobe e desce para que venhas ao mundo meu.
E o largo gesto de meu braço para que te vás, de vez, ao mundo teu?
Ela o comanda.

Esta terrível unha encravada, endiabrou-se de vez e agora,
Risca o ar ensandecida, maldizendo ao equilibrista de vocação:
Idiota, puta que pariu, saia da porra de cima deste muro,
Antes que em ti eu me crave - generosa em veneno,

Laboriosa e criadora de purulenta ferida,
A causar pútrida chaga em tua leitosa consciência hipócrita e presunçosa,
E antes que o dia se acabe,
Trace no céu uma vertiginosa Linha Final ao destino enfadado,

Da tua alma e coração, depostos e encarcerados,
Neste jardim mal-cuidado de lembranças,
No qual prezas protegê-los para que ninguém os tome,
Como se alguém pudesse querer relíquias tão sem graça,

Bêbado equilibrista condenado como Sísifo a repetir-se eternamente,
Vagando por sobre o muro que separa teu jardim e teu deserto,
Sepulcral deserto onde florescem, frutificam e desabrocham,
Tuas mirabolantes espécies proprietárias de princípios morais, de honra e de pureza,

Lugar triste e nublado, onde vagam almas e fantasmas,
Assombrando uns aos outros num jogo pueril,
Onde não se concebem lágrimas ou gargalhadas,
Que rompam o solo seco do teu coração,

Subsolo de águas-mortas-vivas que se recusam a correr,
Que lentamente apodrecem a vida,
Deste cadáver que é preciso disfarçar o cheiro,
Desta promessa aos pais que é preciso abandonar.

....................

Não importa.

Mesmo nos cadáveres, as flores crescem,
E a cada dia, uma nova escolha:
Se você tomar a pílula vermelha, a história continua.
Se você tomar a pílula azul, o muro desaparece.


(Este texto é a nova versão do texto "Ei tu aí, senhor(a) de si!")

sábado, 10 de novembro de 2012

Perdeu a cadela?


- Oi. Você viu passar por aqui uma cadelinha branca arrastando uma coleira de couro?

- Não. Você a perdeu?

- Você acredita que ela fugiu atrás de um dálmata?! Já procurei por tudo, mas não consigo encontrá-la.

- Éhh; as vezes eles fazem isso. O meu cachorro, faz seis meses, sob meus gritos por ele, foi sem olhar para trás e nunca mais voltou.

- Não consigo aceitar essa situação. É tão antinatural o cão abandonar seu dono.

- Bem, ele é um animal, com suas necessidades para atender...

- O meu tinha tudo o que precisava em casa. Comida, carinho, proteção e brinquedos. O que eu não quis foi dar uma cadelinha para ele namorar. Acho indecente isso.

- Olha, eu tenho cachorro há muito tempo. Já tive vários. A partir do finado labrador, percebi que para ele era importante ter uma cadelinha em casa. - E por um tempo vivemos bastante felizes desse jeito. Embora isso não seja o suficiente.

- Nem isso? O que mais eles querem então?

- Olha, eu tenho uma ideia meio maluca sobre isso. No fundo, no fundo, acho que eles queriam ser os donos da casa e que nós fôssemos os animaizinhos de estimação deles, para mandar e cuidar de nós. Tão importante quanto o sexo é a alternância dos papéis na relação. Você aceitaria essa inversão por amor?

- COMO ASSIM? Quero um cachorrinho para que EU tenha companhia; e não o contrário!

- Sim, entendo. Mas faça um exercício de empatia e tente se colocar no lugar dele. Eu faço. Imagino que eu sou uma cadelinha e que dependo do meu amo para tudo. Quanto tempo você acha que poderia viver assim?

- Não sei, não dá para prever, só consigo me ver na posição de dono. Nesta, eu faria o meu melhor e empregaria com minha cadela todos os cuidados... 

- Não sei se é o suficiente para ficar...

- Não dá para saber sem tentar.

- Não sei mesmo o que fazer. As coisas ficaram confusas agora. Acho que a gente deveria combinar de sair para comer alguma coisa amanhã. Talvez você me convença, pelo menos por um tempo.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Rejuvelhecer.

Acidente. Maldição. Surpresa. Horror.

Esse meu futuro que já nasce querendo morrer, eu renego.

No meu último passo de marido, levanto os olhos à frente, e eles estão cegos para o amor.

Meus ouvidos também não te suportam,  arquiinimigo inesperado da minha vida.

PRECISO CALAR-TE.

Dei meu primeiro passo de peregrino e já não há lugar para ti no meu mundo.

Te aconselho viver numa caixa de sapatos, trabalhar, receber alguns trocados e deixar que as pessoas tropecem em você.

...

Ora, levante-se, e pare de agir como um velho.

Eu sou velho. Vivo no meio de velhos, me vejo, penso e sinto como um velho.

Por que você está enganando todo mundo assim?

O que há de errado comigo? Estou dando um adeus silencioso demais a você!

Crescer é uma coisa esquisita, escapa da gente. A gente espera do mundo, e o mundo espera de nós.

E prepare-se para o amor, quebrar regras, presentear promessas, desapontar, envergonhar-se, rir e chorar, e fazer tudo isso de novo.

O universo é um hotel no qual vivemos vidas paralelas.

À beira da piscina, sob as estrelas, sou teu namorado apaixonado que te faz companhia enquanto dizes do teu dia e dos teus sonhos.

Num dos quartos, sou teu amante, e estamos jantando. E à mesa te digo para não devorar tudo, porque, quando acabar o amor, só servirá bem a guerra.

E no andar de cima, entrei no quarto errado e, envolto numa fina ausência de lembranças, você que era minha mulher, agora é minha mãe. Paira no ar, embalada num incesto, a saudade de ter amado uma vez.

Receba um abraço apertado de quem você gosta!

Às vezes você troca muita coisa por nada. Mas é porque você queria tudo.

Nunca se sabe o que está reservado para você.

Certas pessoas estão aqui mesmo para o que der e vier; mas o corpo e a alma têm de estar marcados, para isso acontecer.

Podemos estar incomodados pelo jeito que as coisas aconteceram, mas quando chegar o fim, é preciso se deixar levar.

Uma tempestade terrível se aproxima, propõe-me trocar o que eu quero pelo que eu devo fazer. Quando passar, vai deixar um ar fresco e cheiro de terra molhada.

Algumas coisas mudam.

Algumas coisas não se esquecem.

Nem um pouco dura.

Boa noite, meu amor.

Boa noite.

----

Texto baseado no filme 'O curioso caso de Benjamin Button'. Abaixo o trailler:



sábado, 20 de outubro de 2012

E se vivêssemos todos juntos? (Et Si on Vivait tous Ensemble?)

Tudo começa com pequenas luzinhas bonitinhas e esvoaçantes.

A FÚRIA.

Você já teve uma explosão de raiva, e chamou a vida para a briga? Você faz isso bastante? Ela vem? Você já pensou que, um dia, estranhamente, ela não virá mais quando chamar?

(Virá quando bem entender).

Você tem uma avassaladora paixão por Justiça, por Igualdade, Fraternidade e  por um Mundo maior, menos mesquinho?

Pois saiba que existe algo simples para matar essa fome. Não vou contar, mas é uma coisa que faz um velho ter a sorte de um moço.

Apesar do alívio momentâneo, quisera eu que as coisas fossem tão fáceis. Mas para os nascidos sob o signo da luta, do controle, do poder e da raiva, é natural que passem a vida toda nesse caminho, sem cogitar a saída honrosa da covardia. Mas um dia você será confrontado com ela e terá que escolher.

O DESEJO.

Seios grandes: não é que você vai construir sua vida toda em cima deles, mas são um ótimo começo.

Alguns de nós, vivem uma paixão pela beleza. Ela vive em nossos olhos, nos leva para passear quase todos os dias, dorme em nossa cabeceira, mas não na nossa cama - como dorme com os outros.

Por isso, quando eu for velho,
Num extenuante encontro sexual na escada,
É provável que eu cante para minha companhia:

ô ô ô ô ô ô,
assim voce mata o vovô,
ô ô ô ô ô.

Depois, acamado, não quero que cuidem de mim.

E não me ameace: Já vi amarrarem um balão rosa num velinho e ele ficar ridículo, mas isso não vai me intimidar.

O ADEUS.

Jeanne, Jane Fonda, Barbarella... a todas, um brinde, com um bom vinho francês.

Ai que saudade daquele passado viçoso, mas pelo menos hoje, para quem não nasceu ontem, dá para olhar melhor, e ver quando uma coisa importante está acontecendo.

Como teu marido, optei por nós, a custo da minha consciência e de nossa cumplicidade, e agora olho para você e sinto uma terrível e antecipada saudade; vou arrancar esta página e ainda assim não vai adiantar...

O tempo é precioso, e quando acabar, é bom que deixemos mais coisas boas que ruins para os outros.

Um último brinde à fonte invertida e borbulhante do esquecimento, dos bons e dos maus momentos.

E por fim, como jovens lúcidos, sairemos loucamente a procurar, aquilo que não podemos encontrar, porque... a vida não é apenas dura, mas bela também.


Baseado no filme "E se vivêssemos todos juntos? (Et Si on Vivait tous Ensemble?):



terça-feira, 2 de outubro de 2012

Delícia de trailler

A beleza do cinema... inclusive  num trailler...




Alguns recusam o empréstimo da vida para evitar o débito da morte

"Alguns recusam o empréstimo da vida para evitar o débito da morte
...
... as pessoas que morrem mais felizes são as que melhor viveram suas vidas. E acredito que isso se deve ao fato de que elas não têm grandes arrependimentos por não ter vivido suas vidas. Afinal não precisam se arrepender de ainda não ter dito as pessoas ao seu redor como as ama, pois já disseram. Não se arrependem de não ter contemplado a beleza da natureza e da vida, pois já a fizeram. Não se arrependem de não ter rido e ter se divertido mais, pois fizeram de suas vidas uma grande alegria. Ou seja, não temem tanto a morte, pois já foram se despedindo de suas vidas aproveitando todas as oportunidades que ela lhe ofereceu. ..."

Texto de Claudia Goellner Signoretti veja em 

http://artigos.netsaber.com.br/resumo_artigo_33962/artigo_sobre_alguns_recusam_o_emprestimo_da_vida_para_evitar_o_debito_da_morte

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O que Luiz Gonzaga e Leonard Cohen têm em comum?







"...cada um nasceu, prá falar, prá dizer, de forma diferente o que todo mundo sente." (Raul Seixas - Ave Maria das Ruas)

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

wild is the wind

eu não entendo nada de música, mas ouça aí 'Wild is the wind' com Nina Simone:


domingo, 12 de agosto de 2012

Confissões de um fantasma.

Pensem comigo, um fantasma é uma coisa que não existe. Ou pelo menos não deveria existir. Como ele consegue? É a força de vontade. A força de vontade te permite fazer praticamente qualquer coisa, menos ser... então, ele quase existe... É por isso que ele precisa necessitar de algo, ele precisa de um propósito.

Os fantasmas, nos filmes, são pouco nítidos, mas na vida real são idênticos a uma pessoa de verdade, só por dentro é que são turvos. Foi-se o tempo em que precisavam ser alegóricos, como o homem de lata (O Mágico de Oz), para que os aceitássemos.

Um fantasma é feito principalmente de força de vontade, ou, nas palavras do Agente Smith (Matrix Reloaded): “... Não há como fugir da razão, como negar o propósito...pois, como ambos sabemos, sem propósito, não existiríamos. Foi o propósito que nos criou. O propósito nos conecta. Ele nos impele. Nos guia. Nos motiva. O propósito nos define. O propósito nos une. … “

Fantasmas são assustadores! Quem iria querer topar com um deles, certo? Errado. Tal como os vampiros, fantasmas são sedutores, charmosos, atraentes, poderosos e na maior parte das vezes, bem vestidos. Ou seja, nós é que vamos ao encontro deles, e nos podem dizer: Vieste por tua vontade.

Ele precisa manter vivo o propósito, mas ao alcançar suas metas, ele que consegue tocar as pessoas mas não pode ser tocado, tampouco sacia-se com o prazer que com suavidade ou violência extrai de suas  vítimas. Suas metas são para ele o que o sangue é para os vampiros, e a força de vontade é a sua sede.

Ele alcança os objetivos aos quais se propõe, porque cada um deles constitui a metáfora de sua sobrevivência. Como alguém mergulhado em águas profundas, sente que se expirasse – abrindo mão do controle e deixando que os outros e o mundo sejam a seu modo – não poderia mais respirar, e num instante passaria da sobrevivência em risco a uma agonia aterradora. Não, ele não pode deixar isso acontecer, precisa vencer sempre. Por isso, faz de tudo e faz sempre melhor que os outros.

Demora-se para descobrir que alguém é um fantasma. Ele mesmo costuma ser um dos últimos a saber. Mas quando se percebe assim, um espectro sem vida, é assustador. E pode ser que lhe surja o desejo de ser uma pessoa de verdade. E aí ele finalmente descobre um limite, um desafio que o amedronta, pois uma das coisas que um fantasma não deve fazer é tentar deixar de ser um morto-vivo, pois a dor de uma vida plena pode matá-lo.

Para tentar de verdade, para ser, precisará amar, e isso não se alcança com força de vontade, e sim com a tímida coragem de quem tem tudo a perder e se arrisca assim mesmo. Não mais envolvido pela solidão e protegido por sua beleza de porcelana, o amor o fará sentir o calor do sol percorrer o seu corpo agora humano.

Enfim, um corpo de carne e sangue, mortal, e um belo coração, não mais invencíveis pela força de vontade, que o sustentava pairando no ar - tal qual anjo decaído que não quer decair totalmente.

E como mortal, finalmente será ferido, e morrerá.

E a ironia trágica de ter vivido como um morto – dentre esses tantos sonâmbulos que andam por aí fingindo ser - não será mais relevante, pois,  enquanto os outros reclamam, ele poderá encontrar paz na dor de morrer como um vivo, um pouco a cada dia, sem antecipar as coisas.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Conhecendo a floresta - Parte I

Num belo dia eu a vi como nunca mais veria. Tudo começou quando, corajosa e despretensiosamente, eu me afastei do centro da cidade, onde morava, e caminhando, e pensando, num liiiiiindo dia de sol, fui dar nos arredores da cidade.

Foi sentado num café, quando as leituras já não me distraiam, que levantei lentamente meus olhos e a vi, a  mulher mais bela que eu havia visto neste mundo. Ela estava parada a minha frente, a uma certa distância, mas a sua presença era tão extensa que mesmo a essa distância me chegava o seu cheiro. Eu nunca havia sentido nada igual, não se tratava de um bom perfume qualquer, mas era o odor natural de uma virgindade, inconfundível, que não fazia sentido algum em estar ali, naquela parte da cidade.

O sol a iluminava toda. E eram tão perfeitas, sinuosas e harmônicas as suas partes, que eu só sabia que ela as tinha por obra intelectual, pois olhando para ela, dessa vez eu não via partes. Juro que mal vi os mais maravilhosos seios e o templo da bunda com os quais a mãe natureza havia presenteado esta filha, porque ela toda, transcendia o meu olhar comum.

Nesse dia, de nosso primeiro encontro, o irmão vento se divertia junto com seu resplandescente irmão mais velho. Assoprava-a por todos os lados. Ao redor do seu corpo, dava voltas, em suas copas buscava, sem sucesso, embaralhar-lhe os cabelos crespos e viçosos e quando soprava por baixo, me inebriava com o cheiro de terra fresca, fértil.

Não me era permitido ficar indiferente a ela. Desta vez não tive que me esforçar para fazer ou não fazer algo. Simplesmente me levantei e, a passos lentos me dirigi decididamente a ela. Lembro que demorei a chegar. Foi aí que percebi que era a sua imponente que a fazia parecer próxima, enquanto distante. Assim, nesse primeiro dia, não a alcancei, embora tenha me apresentado. Ela, com esse jeito próximo-distante, me faz caminhar muito mais do que eu desejava, mas também tornou suave o que era uma caminhada íngreme.

Meu desejo era voltar a ela muitas vezes. Sentencie-me a esse destino incerto com a maior das alegrias. Não contei a ela sobre meus propósitos para que ela não me tivesse já por seu. Mas ao tocá-la enquanto me despedia, senti-a impassivelmente sabendo o que se passava comigo.

...

(Continua...em algum ditoso dia futuro!)

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Vivia minha vida de preso, pensando estar livre.
Agora vivo minha vida de preso e sou livre.
Talvez tenha sido condenado a viver muitas de minhas encarnações em uma vida só.
E sendo assim, é sempre pouco o tempo que tenho.
E ainda que tenha recebido muito do mundo, achava que era pouco o que recebi dos meus.
Mas muitas vidas para viver em uma só é muito, mesmo para mim. Mesmo para você.
Num mundo que te dá mais do que você pode receber e me pede mais do que eu posso dar.
Uma parte desta minha vida já se foi, as outras, como todas, a cada dia floresce, e se desfaz.
Eu mesmo me consumo num 'como se' fosse. Como se fosse real, como se fosse importante, como se fosse durar, mas se durar, isso já não me pertence mais...
Deixo obras incompletas, que não saberei se são 'esqueletos da Encol' ou sementes.
Deixo porque tenho outras vidas para viver, todas agora, nesta vida, vocês não podem me ajudar nisso.
Para outras encarnações postergo a devolução do amor que recebo nesta, e isto as vezes me imerge numa suave infelicidade.
Mas aos meus, e eles sabe quem são, eu dedico as brechas de meu coração.
Com amor,
Aureo

quarta-feira, 13 de julho de 2011

ILov

Da série de índices úteis ao dia-a-dia, surge o ILove.

O conceito do ILove é ainda mais simples que o do IGray. basicamente o ILove mede como está o seu coração, carinho, tesão, sorte ou azar no amor, tudo junto. basta, quando você quiser, registrar num dado momento uma variação no seu índice pessoal de amor entre +100 e -100 e esta vai se somar no seu acumulado histórico. o que vale é ver a evolução, as grandes variações de um dia ou semana ou outro período e ver como "variam as variações" conforme se veja o dia, a semana, o mês, o ano ou até mais tempo.

vale a pena calcular.

Vou iniciar a contagem oficial do meu hoje com 3000 pontos.

Aureo - ILove em 13-07-11: 3000 - 70 = 2930

domingo, 6 de março de 2011

minerando

Para conquistar riquezas e buscar ouro e diamantes em sua vida, seja um mineiro e trabalhe embaixo da terra, lava e excrementos.

se já faz sentido trabalhar por tesouros materiais, que se dirá dos tesouros humanos?: carinho, amor, paixão, desejo; e tantos outros.