Pedro emagrecia,
Com as noites mal dormidas,
Fechava os olhos e lhe aparecia,
Uma caverna parricida.
Logo ele?
Ex-atleta, cuidadoso, assim envergonhado,
Olhos fechados, susto danado,
Sua boca encardida e fétida,
Filas de dentes,
Caçadores, coletores,
Amarelados, deteriorados,
Decompostos, desregrados,
Acordava num sobressalto,
Corria para o espelho, se acalmava,
Brilhavam lá seus dentes cultivados,
Frutos da genética, bem higienizados,
Quando se cerravam as cortinas, contudo,
Soprava o hálito da morte,
E de tanto repetir-se a cena,
Começou a duvidar do espelho,
E a examinar,
Tão minuciosamente,
E por tanto tempo,
Os próprios dentes,
Que finalmente viu,
Bem acordado,
Bem ali,
O mal, o tártaro, o noturno visitante,
Não o tártaro dos dentistas,
Sim o tártaro dos deuses,
Onde os fortes morrem esquecidos,
Onde as amizades esmaecem,
Onde habitam as esperanças cansadas,
Os amores que não vieram,
Os amores que já se foram,
A velha criança desenganada.
Refletia-se,
Chorava, ria,
Dava adeus,
Dava a pedro,
Esperavam-no,
Sem saber,
Com paixão,
Foi-se.
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segunda-feira, 12 de maio de 2014
Coragem, compaixão, autenticidade, vulnerabilidade.
Segue um momento fantástico,
Com o que de mais importante há para ser dito.
Que alma iluminada!
Humorada,
Infelizmente, não legendada...
Com o que de mais importante há para ser dito.
Que alma iluminada!
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terça-feira, 7 de janeiro de 2014
A Grande Beleza (texto baseado no filme)
O vovô está muito parado hoje.
Está olhando pela janela desde manhã.
Eu olhei também, mas não consegui ver o que ele vê.
Às vezes ele sorri sem tirar os olhos de lá.
Aí eu olho de novo... mas nada.
Perguntei à mamãe e ela disse que é para eu ir cuidar de coisas de crianças.
E deixar as coisas de velho prá lá.
Por mais chato que seja olhar para o Jeb parado lá a manhã toda,
Quando ele sorri, parece que alguém está puxando e abrindo as cortinas para um belo espetáculo começar.
O que não faria sentido seria sorrir assim ao final do espetáculo.
Eu odeio a minha vida.
A voz doce da minha mãe me enjoa como um melaço tomado no bico da garrafa.
O olhar cuidadoso de meu pai me cerca e me oprime.
Eis que um dia conheço o amor.
A lua reflete-se na água, a água ondula com o vento e o vento brinca com teu vestido.
Tu diz-me 'Vem' e é como se o tempo também fosse contigo, lento, lentíssimo.
E de repente,
Tudo acelerado. Rodopiam. Gritam. Se esfregam. Cospem. Chafurdam.
E eu com eles. Eu sou eles. Não busco mais nada. Tampouco fujo. Fico ao vento.
E o vento me assopra. Mas persisto altivo. Me bajula, persisto. Me vira o rosto, me rio.
E eis que desiste. E por um instante sinto o sol arder em meu rosto, antes que a noite fria, acelerada, me abrace, dizendo-me que ela, e só ela, será minha companheira até o fim.
Sinto saudades. Sinto tristeza. Sinto culpa. Por isso não sinto mais nada.
Apenas um leve incômodo em meus cotovelos há tanto tempo apoiados no parapeito da janela.
E lembranças que me assaltam furtivas, brincalhonas, saudosas de mim.
E meu neto a me olhar, curioso, como se quisesse adivinhar o que vejo.
Ora o que vejo...
Está olhando pela janela desde manhã.
Eu olhei também, mas não consegui ver o que ele vê.
Às vezes ele sorri sem tirar os olhos de lá.
Aí eu olho de novo... mas nada.
Perguntei à mamãe e ela disse que é para eu ir cuidar de coisas de crianças.
E deixar as coisas de velho prá lá.
Por mais chato que seja olhar para o Jeb parado lá a manhã toda,
Quando ele sorri, parece que alguém está puxando e abrindo as cortinas para um belo espetáculo começar.
O que não faria sentido seria sorrir assim ao final do espetáculo.
Eu odeio a minha vida.
A voz doce da minha mãe me enjoa como um melaço tomado no bico da garrafa.
O olhar cuidadoso de meu pai me cerca e me oprime.
Eis que um dia conheço o amor.
A lua reflete-se na água, a água ondula com o vento e o vento brinca com teu vestido.
Tu diz-me 'Vem' e é como se o tempo também fosse contigo, lento, lentíssimo.
E de repente,
Tudo acelerado. Rodopiam. Gritam. Se esfregam. Cospem. Chafurdam.
E eu com eles. Eu sou eles. Não busco mais nada. Tampouco fujo. Fico ao vento.
E o vento me assopra. Mas persisto altivo. Me bajula, persisto. Me vira o rosto, me rio.
E eis que desiste. E por um instante sinto o sol arder em meu rosto, antes que a noite fria, acelerada, me abrace, dizendo-me que ela, e só ela, será minha companheira até o fim.
Sinto saudades. Sinto tristeza. Sinto culpa. Por isso não sinto mais nada.
Apenas um leve incômodo em meus cotovelos há tanto tempo apoiados no parapeito da janela.
E lembranças que me assaltam furtivas, brincalhonas, saudosas de mim.
E meu neto a me olhar, curioso, como se quisesse adivinhar o que vejo.
Ora o que vejo...
domingo, 28 de outubro de 2012
O que dá sentido a sua vida?
Texto interessante sobre a vida em http://amnerisamaroni.wordpress.com/2012/10/27/o-homem-que-nao-estava-la-uma-das-subjetividades-contemporaneas/
Abaixo, um trecho:
"Merseault – o personagem do romance – leva uma vida banal. Sabemos a sucessão de atos descontínuos que marcam o romance: seu superior lhe indica que poderá ser promovido, Merseault responde que ¨tanto faz¨. Aliás, para ele quase tudo ¨tanto faz¨. Tanto faz ser ou não amigo de Raymond, o ¨comerciante¨; tanto faz também ser testemunha do mesmo Raymond contra a mulher que espancara violentamente; tanto faz casar ou não com Marie – mas se ela quiser se casar porque não? Já que para ele ¨tanto faz¨! Todas as suas ações respondem a demandas do outro, não são genuínas, não partem dele."
Abaixo, um trecho:
"Merseault – o personagem do romance – leva uma vida banal. Sabemos a sucessão de atos descontínuos que marcam o romance: seu superior lhe indica que poderá ser promovido, Merseault responde que ¨tanto faz¨. Aliás, para ele quase tudo ¨tanto faz¨. Tanto faz ser ou não amigo de Raymond, o ¨comerciante¨; tanto faz também ser testemunha do mesmo Raymond contra a mulher que espancara violentamente; tanto faz casar ou não com Marie – mas se ela quiser se casar porque não? Já que para ele ¨tanto faz¨! Todas as suas ações respondem a demandas do outro, não são genuínas, não partem dele."
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quinta-feira, 20 de setembro de 2012
Torna-te o que tu és... Como assim?
Há alguns anos uma frase tem me intrigado e ainda que certo de sua verdade nunca consegui alcançar-lhe o significado:
"Torna-te o que tu és!"
Pois não é que hoje, folheando despretensiosamente uma revista, leio a entrevista de Ana Cecília Carvalho (autora de 'O livro neurótico de receitas') e me deparo com a solução:
"Deixe de ser o que tu eras e torna-te o que tu és!"
Há também a contribuição da Eliane Brum, que tinha um con-texto maior, mas que cai muito bem aqui: "Sempre fomos, mas tornar-se é saber que se é."
E aí vejo que voltamos a outro mandamento central - "Conhece-te a ti mesmo" - ou, em latim, nosce te ipsum.
"Torna-te o que tu és!"
Pois não é que hoje, folheando despretensiosamente uma revista, leio a entrevista de Ana Cecília Carvalho (autora de 'O livro neurótico de receitas') e me deparo com a solução:
"Deixe de ser o que tu eras e torna-te o que tu és!"
Há também a contribuição da Eliane Brum, que tinha um con-texto maior, mas que cai muito bem aqui: "Sempre fomos, mas tornar-se é saber que se é."
E aí vejo que voltamos a outro mandamento central - "Conhece-te a ti mesmo" - ou, em latim, nosce te ipsum.
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domingo, 12 de agosto de 2012
Confissões de um fantasma.
Pensem comigo, um fantasma é uma coisa que não existe. Ou
pelo menos não deveria existir. Como ele consegue? É a força de vontade. A
força de vontade te permite fazer praticamente qualquer coisa, menos ser... então, ele quase existe... É por isso que ele precisa necessitar de algo, ele
precisa de um propósito.
Os fantasmas, nos filmes, são pouco nítidos, mas na vida
real são idênticos a uma pessoa de verdade, só por dentro é que são turvos.
Foi-se o tempo em que precisavam ser alegóricos, como o homem de lata (O Mágico
de Oz), para que os aceitássemos.
Um fantasma é feito principalmente de força de vontade, ou, nas palavras do Agente Smith (Matrix Reloaded): “... Não há como fugir da razão, como negar o
propósito...pois, como ambos sabemos, sem propósito, não existiríamos. Foi o
propósito que nos criou. O propósito nos conecta. Ele nos impele. Nos guia. Nos
motiva. O propósito nos define. O propósito nos une. … “
Fantasmas são assustadores! Quem iria querer topar com um
deles, certo? Errado. Tal como os vampiros, fantasmas são sedutores, charmosos,
atraentes, poderosos e na maior parte das vezes, bem vestidos. Ou seja, nós é
que vamos ao encontro deles, e nos podem dizer: Vieste por tua vontade.
Ele precisa manter vivo o propósito, mas ao alcançar suas
metas, ele que consegue tocar as pessoas mas não pode ser tocado, tampouco sacia-se com o
prazer que com suavidade ou violência extrai de suas vítimas. Suas metas são para ele o que o
sangue é para os vampiros, e a força de vontade é a sua sede.
Ele alcança os objetivos aos quais se propõe, porque cada um
deles constitui a metáfora de sua sobrevivência. Como alguém mergulhado em
águas profundas, sente que se expirasse – abrindo mão do controle e deixando
que os outros e o mundo sejam a seu modo – não poderia mais respirar, e num
instante passaria da sobrevivência em risco a uma agonia aterradora. Não, ele
não pode deixar isso acontecer, precisa
vencer sempre. Por isso, faz de tudo e faz sempre melhor que os outros.
Demora-se para descobrir que alguém é um fantasma. Ele mesmo
costuma ser um dos últimos a saber. Mas quando se percebe assim, um espectro
sem vida, é assustador. E pode ser que lhe surja o desejo de ser uma pessoa de
verdade. E aí ele finalmente descobre um limite, um desafio que o amedronta,
pois uma das coisas que um fantasma não deve fazer é tentar deixar de ser um
morto-vivo, pois a dor de uma vida plena pode matá-lo.
Para tentar de verdade, para ser, precisará amar, e isso não
se alcança com força de vontade, e sim com a tímida coragem de quem tem tudo a
perder e se arrisca assim mesmo. Não mais envolvido pela solidão e protegido por sua beleza de porcelana, o amor o fará sentir o calor do sol percorrer o seu corpo
agora humano.
Enfim, um corpo de carne e sangue, mortal, e um belo coração,
não mais invencíveis pela força de vontade, que o sustentava pairando no ar - tal qual anjo
decaído que não quer decair totalmente.
E como mortal, finalmente será ferido, e morrerá.
E a ironia trágica de ter vivido como um morto – dentre esses
tantos sonâmbulos que andam por aí fingindo ser - não será mais relevante,
pois, enquanto os outros reclamam, ele
poderá encontrar paz na dor de morrer como um vivo, um pouco a cada dia, sem antecipar as coisas.
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domingo, 29 de julho de 2012
Maldita fome!
...
Maldita saciedade!
Se tenho fome é porque me faltam alimentos, se tenho alimentos vem me faltar a fome.
...
Maldita saciedade!
Se tenho fome é porque me faltam alimentos, se tenho alimentos vem me faltar a fome.
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quarta-feira, 13 de julho de 2011
significado
O importante é, pelo menos de vez em quando, fazer algo sem sentido, para não perder o verdadeiro significado das coisas.
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domingo, 6 de março de 2011
minerando
Para conquistar riquezas e buscar ouro e diamantes em sua vida, seja um mineiro e trabalhe embaixo da terra, lava e excrementos.
se já faz sentido trabalhar por tesouros materiais, que se dirá dos tesouros humanos?: carinho, amor, paixão, desejo; e tantos outros.
se já faz sentido trabalhar por tesouros materiais, que se dirá dos tesouros humanos?: carinho, amor, paixão, desejo; e tantos outros.
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As coisas fazem sentido pr'ôce?
Ser cercado por coisas que não fazem sentido, faz mal. Quando as coisas tem significado excessivo, também fazem mal.
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quinta-feira, 17 de junho de 2010
A última religião
O materialista é um fiel cultor do Deus-nada. A sua ausência é presença e a sua presença é ausência; em vez de ligar todas as coisas, Ele separa todas as coisas; em vez de mover a tudo, a tudo mantém imóvel.
O mito da atualidade é o Deus-nada, Ele não se importa, não requer, não avisa, não espera, não pode, não ordena e não cria. Ele é o Deus-não.
Como todo Deus único, o Deus-não não aceita a existência de outras forças que determinem o mundo diferente de sua não-vontade.
Na religião do Deus-não, eu como fiel sou cético; eu não creio, não sinto, não dependo, não quero e não preciso.
des-amén e vamos nos consumir!
O mito da atualidade é o Deus-nada, Ele não se importa, não requer, não avisa, não espera, não pode, não ordena e não cria. Ele é o Deus-não.
Como todo Deus único, o Deus-não não aceita a existência de outras forças que determinem o mundo diferente de sua não-vontade.
Na religião do Deus-não, eu como fiel sou cético; eu não creio, não sinto, não dependo, não quero e não preciso.
des-amén e vamos nos consumir!
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