Pedro emagrecia,
Com as noites mal dormidas,
Fechava os olhos e lhe aparecia,
Uma caverna parricida.
Logo ele?
Ex-atleta, cuidadoso, assim envergonhado,
Olhos fechados, susto danado,
Sua boca encardida e fétida,
Filas de dentes,
Caçadores, coletores,
Amarelados, deteriorados,
Decompostos, desregrados,
Acordava num sobressalto,
Corria para o espelho, se acalmava,
Brilhavam lá seus dentes cultivados,
Frutos da genética, bem higienizados,
Quando se cerravam as cortinas, contudo,
Soprava o hálito da morte,
E de tanto repetir-se a cena,
Começou a duvidar do espelho,
E a examinar,
Tão minuciosamente,
E por tanto tempo,
Os próprios dentes,
Que finalmente viu,
Bem acordado,
Bem ali,
O mal, o tártaro, o noturno visitante,
Não o tártaro dos dentistas,
Sim o tártaro dos deuses,
Onde os fortes morrem esquecidos,
Onde as amizades esmaecem,
Onde habitam as esperanças cansadas,
Os amores que não vieram,
Os amores que já se foram,
A velha criança desenganada.
Refletia-se,
Chorava, ria,
Dava adeus,
Dava a pedro,
Esperavam-no,
Sem saber,
Com paixão,
Foi-se.
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segunda-feira, 12 de maio de 2014
Coragem, compaixão, autenticidade, vulnerabilidade.
Segue um momento fantástico,
Com o que de mais importante há para ser dito.
Que alma iluminada!
Humorada,
Infelizmente, não legendada...
Com o que de mais importante há para ser dito.
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terça-feira, 7 de janeiro de 2014
A Grande Beleza (texto baseado no filme)
O vovô está muito parado hoje.
Está olhando pela janela desde manhã.
Eu olhei também, mas não consegui ver o que ele vê.
Às vezes ele sorri sem tirar os olhos de lá.
Aí eu olho de novo... mas nada.
Perguntei à mamãe e ela disse que é para eu ir cuidar de coisas de crianças.
E deixar as coisas de velho prá lá.
Por mais chato que seja olhar para o Jeb parado lá a manhã toda,
Quando ele sorri, parece que alguém está puxando e abrindo as cortinas para um belo espetáculo começar.
O que não faria sentido seria sorrir assim ao final do espetáculo.
Eu odeio a minha vida.
A voz doce da minha mãe me enjoa como um melaço tomado no bico da garrafa.
O olhar cuidadoso de meu pai me cerca e me oprime.
Eis que um dia conheço o amor.
A lua reflete-se na água, a água ondula com o vento e o vento brinca com teu vestido.
Tu diz-me 'Vem' e é como se o tempo também fosse contigo, lento, lentíssimo.
E de repente,
Tudo acelerado. Rodopiam. Gritam. Se esfregam. Cospem. Chafurdam.
E eu com eles. Eu sou eles. Não busco mais nada. Tampouco fujo. Fico ao vento.
E o vento me assopra. Mas persisto altivo. Me bajula, persisto. Me vira o rosto, me rio.
E eis que desiste. E por um instante sinto o sol arder em meu rosto, antes que a noite fria, acelerada, me abrace, dizendo-me que ela, e só ela, será minha companheira até o fim.
Sinto saudades. Sinto tristeza. Sinto culpa. Por isso não sinto mais nada.
Apenas um leve incômodo em meus cotovelos há tanto tempo apoiados no parapeito da janela.
E lembranças que me assaltam furtivas, brincalhonas, saudosas de mim.
E meu neto a me olhar, curioso, como se quisesse adivinhar o que vejo.
Ora o que vejo...
Está olhando pela janela desde manhã.
Eu olhei também, mas não consegui ver o que ele vê.
Às vezes ele sorri sem tirar os olhos de lá.
Aí eu olho de novo... mas nada.
Perguntei à mamãe e ela disse que é para eu ir cuidar de coisas de crianças.
E deixar as coisas de velho prá lá.
Por mais chato que seja olhar para o Jeb parado lá a manhã toda,
Quando ele sorri, parece que alguém está puxando e abrindo as cortinas para um belo espetáculo começar.
O que não faria sentido seria sorrir assim ao final do espetáculo.
Eu odeio a minha vida.
A voz doce da minha mãe me enjoa como um melaço tomado no bico da garrafa.
O olhar cuidadoso de meu pai me cerca e me oprime.
Eis que um dia conheço o amor.
A lua reflete-se na água, a água ondula com o vento e o vento brinca com teu vestido.
Tu diz-me 'Vem' e é como se o tempo também fosse contigo, lento, lentíssimo.
E de repente,
Tudo acelerado. Rodopiam. Gritam. Se esfregam. Cospem. Chafurdam.
E eu com eles. Eu sou eles. Não busco mais nada. Tampouco fujo. Fico ao vento.
E o vento me assopra. Mas persisto altivo. Me bajula, persisto. Me vira o rosto, me rio.
E eis que desiste. E por um instante sinto o sol arder em meu rosto, antes que a noite fria, acelerada, me abrace, dizendo-me que ela, e só ela, será minha companheira até o fim.
Sinto saudades. Sinto tristeza. Sinto culpa. Por isso não sinto mais nada.
Apenas um leve incômodo em meus cotovelos há tanto tempo apoiados no parapeito da janela.
E lembranças que me assaltam furtivas, brincalhonas, saudosas de mim.
E meu neto a me olhar, curioso, como se quisesse adivinhar o que vejo.
Ora o que vejo...
domingo, 14 de julho de 2013
Manifestações. Análise 2. O povo continua sendo subestimado.
Derrota da PEC 37: O povo continua sendo subestimado.
As atuais manifestações e protestos surpreenderam a muitos, nas redes sociais e nas ruas. Surge naturalmente uma vontade de tentar explicá-las e já temos várias análises. Esta, visa debater com a análise feita pelo texto “Derrota da PEC 37: a apropriação corporativa das manifestações de rua no Brasil”. A ideia geral é apresentada de plano: “O movimento das ruas se deixou apropriar por um dos lados do conflito corporativo. Deixou-se de cobrar o que realmente importa na investigação criminal: segurança jurídica, respeito aos direitos do investigado e o fim da violência policial e de disputas corporativistas”. Para a melhor compreensão deste texto, vale a leitura daquele primeiro, que você pode encontrar aqui http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/ derrota-da-pec-37-a-apropriacao-corporativa-da s-manifestacoes-de-rua-no-brasil/
Interlúdio: Se você quiser ler um bom texto de verdade sobre as motivações dos protestos, leia http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/119566-quotanota-ai-eu-sou-ninguemquot.shtml.
A pergunta é: A sociedade foi enganada ou manipulada em sua livre vontade de protestar ao pedir a rejeição da PEC 37?
Umas das coisas que as análises têm abordado é que falta orientação e direção claros nos protestos. Isso levou comentaristas a dizer que a multidão não tinha foco. Ao que foram respondidos que o que existem são muitos e muitos focos e não ausência de objetivos.
Bom, o argumento do texto é de que essa falta de foco, a impulsividade e os erros das informações nas redes sociais induziram as manifestações a erro. Tendo levado a população a tomar partido numa disputa entre as corporações do Ministério Público e da Polícia e levando-a a esquecer-se de cobrar outras medidas mais efetivas de melhoria da segurança pública.
Qualquer profissional ou pessoa que resolver estudar problemas públicos com atenção e persistência, encontrará milhares deles e centenas de propostas de solução, que em princípio podem funcionar. Sem dúvida, existiam e existem muitas outras coisas importantes que deveriam causar protestos. Por que a sociedade escolheu uma duzia destas em prejuízo do restante? Essas foram as escolhas certas? Essa é uma reflexão importante, mas é prematuro afirmar que a percepção ou modo de escolha estão errados.
O que quero abordar é principalmente a análise feita sobre o Ministério Público e também tratar um pouco de sua relação com a Polícia. Ao fazê-la, não tenho como me afastar muito da minha experiência de fazer parte do Ministério Público Federal há quase 10 anos. Mas também não a posso tomar como a realidade de todo o Ministério Público Federal ou dos demais Ministérios Públicos. A vida é muito maior que nossas pequenas experiências e visões pessoais e conclusões genéricas acabam sempre sujeitas a revisões.
O texto que estamos analisando tem vários diagnósticos interessantes. Mas quero analisar alguns dos quais eu discordei mais.
O primeiro trecho é “...Mas promove por vezes seleção do caso persecutório, dando preferência ao que lhe ofereça maior exposição midiática e ao que traduza maior risco para atores da política e da economia...”.
Isso é algo que eu tenho ouvido eventualmente por ali ou por aqui, mas não corresponde a minha experiência como promotor de justiça no âmbito federal. A expressão “por vezes” é muito vaga para se ter uma noção firme. Quantas vezes, em quais casos e quantos casos esses representam do total de investigações? Esse é um número que um comentarista externo teria dificuldade de obter, mas comentários de um Corregedor-geral do Ministério Público sempre podem vir acompanhados de estudos, números e documentos técnicos que se sobreponham em qualidade a informações como as que teriam em tese induzido a erro a sociedade em seus protestos.
Agora, quem escolhe o que e o como é publicado na mídia? O Promotor de Justiça, mais ou menos como outros funcionários públicos que prestem informações a mídia, apresenta sua versão, mas é a mídia que decide se publica ou não, o que e como, e não o contrário. Muitos casos relevantes que não traduzem risco aos políticos por não serem atuações repressivas, não recebem a mesma atenção e isso pode alterar a percepção de um leigo e fazê-lo acreditar que aquela é a conduta cotidiana do Ministério Público.
Outro trecho relevante para a crítica: … “O fenômeno do concurseirismo: os novos procuradores e promotores são, em geral, jovens com excelente formação jurídica, mas que são muito exigentes quanto ao que esperam da carreira e reagem com acentuada agressividade quando são frustrados em suas demandas. Estas dizem respeito à remuneração, às vantagens, ao prestígio e ao poder que dele decorre.”
Neste trecho aflora um importante conflito intergeracionais. Não são apenas nos concursos para promotores que passam muitos “jovens”. Milhares de cargos em comissão de livre nomeação, em Brasília e muitos outros lugares, são ocupados por pessoas igualmente ou até mais jovens. Também foram principalmente os jovens, de corpo ou de alma, que saíram as ruas para protestar. É natural que os jovens sejam exigentes e até agressivos quando frustrados, embora essa reação tenha mais haver com maturidade e não com idade. Mas jovens participativos, opiniativos, exigentes vão formar “adultos” melhores. É o que todos esperamos.
Outro trecho importante: “A disputa pelo poder investigatório, presente na campanha da PEC 37, em última análise é parte dessa competição e não traduz nenhuma preocupação com a eficiência do Estado. Investigar ou não investigar é poder ou não poder expor a governança e a sociedade a riscos e, portanto, é cacifar-se ou não se cacifar para demandas corporativas.” (grifei)
Embora a disputa pelo poder de investigação, para que seja apenas das polícias ou também do ministério público seja sim uma questão corporativa, ela é maior do que isso. Ela tem haver com mais possibilidade de investigação dos inúmeros crimes e da corrupção que prejudica o país. Mas a investigação é o poder de proteger e não de expor a sociedade e a governança desta mesma sociedade a riscos. A investigação descobrirá os fatos e os responsáveis pelas condutas antisociais e criminosas que prejudiquem a sociedade. De fato, os recursos aplicados, a colaboração e os resultados das investigações devem ser constantemente melhorados e disso não tratou a PEC 37, que apenas impedia o Ministério Público de investigar. Essa é uma das bandeiras muito relevantes. Assim, como a da “...organização do sistema de ganhos na administração pública para lhe conferir maior eficiência.” também levantada pelo autor do texto.
As atuais manifestações e protestos surpreenderam a muitos, nas redes sociais e nas ruas. Surge naturalmente uma vontade de tentar explicá-las e já temos várias análises. Esta, visa debater com a análise feita pelo texto “Derrota da PEC 37: a apropriação corporativa das manifestações de rua no Brasil”. A ideia geral é apresentada de plano: “O movimento das ruas se deixou apropriar por um dos lados do conflito corporativo. Deixou-se de cobrar o que realmente importa na investigação criminal: segurança jurídica, respeito aos direitos do investigado e o fim da violência policial e de disputas corporativistas”. Para a melhor compreensão deste texto, vale a leitura daquele primeiro, que você pode encontrar aqui http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/
Interlúdio: Se você quiser ler um bom texto de verdade sobre as motivações dos protestos, leia http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/119566-quotanota-ai-eu-sou-ninguemquot.shtml.
A pergunta é: A sociedade foi enganada ou manipulada em sua livre vontade de protestar ao pedir a rejeição da PEC 37?
Umas das coisas que as análises têm abordado é que falta orientação e direção claros nos protestos. Isso levou comentaristas a dizer que a multidão não tinha foco. Ao que foram respondidos que o que existem são muitos e muitos focos e não ausência de objetivos.
Bom, o argumento do texto é de que essa falta de foco, a impulsividade e os erros das informações nas redes sociais induziram as manifestações a erro. Tendo levado a população a tomar partido numa disputa entre as corporações do Ministério Público e da Polícia e levando-a a esquecer-se de cobrar outras medidas mais efetivas de melhoria da segurança pública.
Qualquer profissional ou pessoa que resolver estudar problemas públicos com atenção e persistência, encontrará milhares deles e centenas de propostas de solução, que em princípio podem funcionar. Sem dúvida, existiam e existem muitas outras coisas importantes que deveriam causar protestos. Por que a sociedade escolheu uma duzia destas em prejuízo do restante? Essas foram as escolhas certas? Essa é uma reflexão importante, mas é prematuro afirmar que a percepção ou modo de escolha estão errados.
O que quero abordar é principalmente a análise feita sobre o Ministério Público e também tratar um pouco de sua relação com a Polícia. Ao fazê-la, não tenho como me afastar muito da minha experiência de fazer parte do Ministério Público Federal há quase 10 anos. Mas também não a posso tomar como a realidade de todo o Ministério Público Federal ou dos demais Ministérios Públicos. A vida é muito maior que nossas pequenas experiências e visões pessoais e conclusões genéricas acabam sempre sujeitas a revisões.
O texto que estamos analisando tem vários diagnósticos interessantes. Mas quero analisar alguns dos quais eu discordei mais.
O primeiro trecho é “...Mas promove por vezes seleção do caso persecutório, dando preferência ao que lhe ofereça maior exposição midiática e ao que traduza maior risco para atores da política e da economia...”.
Isso é algo que eu tenho ouvido eventualmente por ali ou por aqui, mas não corresponde a minha experiência como promotor de justiça no âmbito federal. A expressão “por vezes” é muito vaga para se ter uma noção firme. Quantas vezes, em quais casos e quantos casos esses representam do total de investigações? Esse é um número que um comentarista externo teria dificuldade de obter, mas comentários de um Corregedor-geral do Ministério Público sempre podem vir acompanhados de estudos, números e documentos técnicos que se sobreponham em qualidade a informações como as que teriam em tese induzido a erro a sociedade em seus protestos.
Agora, quem escolhe o que e o como é publicado na mídia? O Promotor de Justiça, mais ou menos como outros funcionários públicos que prestem informações a mídia, apresenta sua versão, mas é a mídia que decide se publica ou não, o que e como, e não o contrário. Muitos casos relevantes que não traduzem risco aos políticos por não serem atuações repressivas, não recebem a mesma atenção e isso pode alterar a percepção de um leigo e fazê-lo acreditar que aquela é a conduta cotidiana do Ministério Público.
Outro trecho relevante para a crítica: … “O fenômeno do concurseirismo: os novos procuradores e promotores são, em geral, jovens com excelente formação jurídica, mas que são muito exigentes quanto ao que esperam da carreira e reagem com acentuada agressividade quando são frustrados em suas demandas. Estas dizem respeito à remuneração, às vantagens, ao prestígio e ao poder que dele decorre.”
Neste trecho aflora um importante conflito intergeracionais. Não são apenas nos concursos para promotores que passam muitos “jovens”. Milhares de cargos em comissão de livre nomeação, em Brasília e muitos outros lugares, são ocupados por pessoas igualmente ou até mais jovens. Também foram principalmente os jovens, de corpo ou de alma, que saíram as ruas para protestar. É natural que os jovens sejam exigentes e até agressivos quando frustrados, embora essa reação tenha mais haver com maturidade e não com idade. Mas jovens participativos, opiniativos, exigentes vão formar “adultos” melhores. É o que todos esperamos.
Outro trecho importante: “A disputa pelo poder investigatório, presente na campanha da PEC 37, em última análise é parte dessa competição e não traduz nenhuma preocupação com a eficiência do Estado. Investigar ou não investigar é poder ou não poder expor a governança e a sociedade a riscos e, portanto, é cacifar-se ou não se cacifar para demandas corporativas.” (grifei)
Embora a disputa pelo poder de investigação, para que seja apenas das polícias ou também do ministério público seja sim uma questão corporativa, ela é maior do que isso. Ela tem haver com mais possibilidade de investigação dos inúmeros crimes e da corrupção que prejudica o país. Mas a investigação é o poder de proteger e não de expor a sociedade e a governança desta mesma sociedade a riscos. A investigação descobrirá os fatos e os responsáveis pelas condutas antisociais e criminosas que prejudiquem a sociedade. De fato, os recursos aplicados, a colaboração e os resultados das investigações devem ser constantemente melhorados e disso não tratou a PEC 37, que apenas impedia o Ministério Público de investigar. Essa é uma das bandeiras muito relevantes. Assim, como a da “...organização do sistema de ganhos na administração pública para lhe conferir maior eficiência.” também levantada pelo autor do texto.
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domingo, 20 de janeiro de 2013
Deflorando mentes.
Eu sei quem você é.
Nós mal nos conhecemos.
Eu sou boa em adivinhação, intuição e em juntar peças desconexas quaisquer sobre a vida dos homens em geral. Mais alguns minutos de conversa e perguntas e eu poderei traçar um perfil completo de você.
Interessante... mas eu prefiro deflorar-te!
O que você está falando, seu canalha vulgar? Eu vou embora!
Fique aqui (ele a segura pelo braço), eu só posso e só vou deflorar a tua mente.
(silêncio e suspense angustiantes)
Eu não suporto o silêncio.
Ele é necessário. E agora que se acaba, vejo que em teu caso ele será quebrado de modo particularmente doloroso.
Estou ouvindo... (olhar desafiador)
Deflorar é tirar a flor. As pessoas comuns acham que trata-se de tirar a virgindade, romper o hímen. Mas como sabes, esta flor não te posso tirar novamente. Eu falo em deflorar a parte mais bela e intocada de tua mente: como julgas o mundo, e por reflexo, o que pensas de ti mesma.
(tristeza)
Aqui na rua? As pessoas estão olhando. Não faça isso, por favor.
É uma violência necessária a tua vida, pois estás a desperdiçando vergonhosamente, não preciso de tua autorização. Além disso, não te preocupes, eu já tive a minha vez, e por isso posso fazer isso por ti.
Levanta a saia dos teus preconceitos.
(ela, relutante, levanta)
Desabotoa a blusa de teus auto-enganos.
(seus dedos tocam os botões e hesitam; ele a ajuda)
Tira o sutiã de tuas ideologias.
Não (,) pára, eu não suporto mais isso. Tem que ser assim?
Tem que ser assim.
Baixa a calcinha de teus moralismos.
Eu não quero mais ouvir isso!
(se debate)
Estou quase acabando...
(Ela chora, enquanto as suas decisões anteriores, tão parecidas umas com as outras, alinham-se para uma última fotografia de despedida que faz sua mente latejar)
O que você fez comigo?
Perceba.
(ela primeiro desvia o olhar, mas quando olha, mal se reconhece.)
Que é essa doce e intensa presença?
Acabamos. Veja como você está linda. Melhor, veja como VOCÊ É LINDA, PERFEITA!
(ela respira profunda)
Como te sentes sem a castidade mental com a qual impedias a ti própria o gozo dos teus infinitos, especiais e únicos potenciais?
Estranha, como se estivesse nua, mas não é ruim como eu imaginava. Estou bem...
Estás livre. Segue agora para uma vida intensa, porque os teus anos têm andado apressados. Já sabes o principal, que a beleza de tua mente não está em sua virgindade.
Posso ir contigo?
Dessa vez não.
Obrigada assim mesmo.
Esse texto foi desenvolvido a partir do texto original 'Deflorando mentes' de 2008 do mesmo autor.
Nós mal nos conhecemos.
Eu sou boa em adivinhação, intuição e em juntar peças desconexas quaisquer sobre a vida dos homens em geral. Mais alguns minutos de conversa e perguntas e eu poderei traçar um perfil completo de você.
Interessante... mas eu prefiro deflorar-te!
O que você está falando, seu canalha vulgar? Eu vou embora!
Fique aqui (ele a segura pelo braço), eu só posso e só vou deflorar a tua mente.
(silêncio e suspense angustiantes)
Eu não suporto o silêncio.
Ele é necessário. E agora que se acaba, vejo que em teu caso ele será quebrado de modo particularmente doloroso.
Estou ouvindo... (olhar desafiador)
Deflorar é tirar a flor. As pessoas comuns acham que trata-se de tirar a virgindade, romper o hímen. Mas como sabes, esta flor não te posso tirar novamente. Eu falo em deflorar a parte mais bela e intocada de tua mente: como julgas o mundo, e por reflexo, o que pensas de ti mesma.
(tristeza)
Aqui na rua? As pessoas estão olhando. Não faça isso, por favor.
É uma violência necessária a tua vida, pois estás a desperdiçando vergonhosamente, não preciso de tua autorização. Além disso, não te preocupes, eu já tive a minha vez, e por isso posso fazer isso por ti.
Levanta a saia dos teus preconceitos.
(ela, relutante, levanta)
Desabotoa a blusa de teus auto-enganos.
(seus dedos tocam os botões e hesitam; ele a ajuda)
Tira o sutiã de tuas ideologias.
Não (,) pára, eu não suporto mais isso. Tem que ser assim?
Tem que ser assim.
Baixa a calcinha de teus moralismos.
Eu não quero mais ouvir isso!
(se debate)
Estou quase acabando...
(Ela chora, enquanto as suas decisões anteriores, tão parecidas umas com as outras, alinham-se para uma última fotografia de despedida que faz sua mente latejar)
O que você fez comigo?
Perceba.
(ela primeiro desvia o olhar, mas quando olha, mal se reconhece.)
Que é essa doce e intensa presença?
Acabamos. Veja como você está linda. Melhor, veja como VOCÊ É LINDA, PERFEITA!
(ela respira profunda)
Como te sentes sem a castidade mental com a qual impedias a ti própria o gozo dos teus infinitos, especiais e únicos potenciais?
Estranha, como se estivesse nua, mas não é ruim como eu imaginava. Estou bem...
Estás livre. Segue agora para uma vida intensa, porque os teus anos têm andado apressados. Já sabes o principal, que a beleza de tua mente não está em sua virgindade.
Posso ir contigo?
Dessa vez não.
Obrigada assim mesmo.
Esse texto foi desenvolvido a partir do texto original 'Deflorando mentes' de 2008 do mesmo autor.
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quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
domingo, 28 de outubro de 2012
Coisas que as mulheres nem imaginam que achamos sexy.
Texto muito muito legal. O original está em http://www.casalsemvergonha.com.br/2011/07/01/46-coisas-que-as-mulheres-nem-imaginam-que-achamos-sexy/
Abaixo temos uma versão baseada no original:
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Abaixo temos uma versão baseada no original:
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1. Rabo de cavalo com fios soltos.
Eu pensei em um coque, com palitos atravessados e com fios fugitivos. Aliás, ambos arranjos têm em comum despirem o pescoço e o deixarem deliciosamente nu.
Eu pensei em um coque, com palitos atravessados e com fios fugitivos. Aliás, ambos arranjos têm em comum despirem o pescoço e o deixarem deliciosamente nu.
2. Ela usando minha camisa e mais nada.
O 'mais nada' vem por conta de que eu sei em que circunstâncias ela vestiu aquela camisa, até porque não dá prá ver, mas só para imaginar o que ela tem ou não tem embaixo da camisa...
O 'mais nada' vem por conta de que eu sei em que circunstâncias ela vestiu aquela camisa, até porque não dá prá ver, mas só para imaginar o que ela tem ou não tem embaixo da camisa...
3. Barulho do salto alto.
Tem que ser à noite, chegando... Partindo já dá saudade.
Tem que ser à noite, chegando... Partindo já dá saudade.
4. Sardinhas no rosto.
Um estilo de pintura, dentre muitos outros possíveis, na mais bela tela que existe, o rosto feminino.
Um estilo de pintura, dentre muitos outros possíveis, na mais bela tela que existe, o rosto feminino.
5. Quando elas conduzem o sexo.
É maravilhoso; mas, a menos que você esteja MUITO cansado (morto), não dá uma vontade irresistível de alternar a condução?
É maravilhoso; mas, a menos que você esteja MUITO cansado (morto), não dá uma vontade irresistível de alternar a condução?
6. A forma como ela ri.
Se for colocar os motivos em ordem de importância, fica assim: Quando ri para você, quando ri com você, e mesmo quando ri de você. Depois vêm todos os outros motivos.
Se for colocar os motivos em ordem de importância, fica assim: Quando ri para você, quando ri com você, e mesmo quando ri de você. Depois vêm todos os outros motivos.
7. Quando ela senta no nosso colo pra dar um beijo.
E após concedê-lo , no meio do gesto de ir-se, sente uma necessidade inapelável, volta dedicada e dá mais uns, caprichados.
E após concedê-lo , no meio do gesto de ir-se, sente uma necessidade inapelável, volta dedicada e dá mais uns, caprichados.
8. Um belo par de seios.
Logo se vê que nem tudo que é maravilhoso é 'ímpar'.
Em um livro de trekking para pequenos seres, consta: "Eles se erguem da ampla planície do colo e formam um belo e sufocante vale, que conduz à... outra planície. Se resolver escalá-los, no cume encontrarás um pira, em homenagem aos Deuses. Não a acenda, pequeno montanhista, porque ruidosos terremotos o jogarão ao céus e, ainda que não morra ao aterrisar nas macias planícies, pode ser que a esta altura, todo aquele mundo esteja assolado por tremores, e não terás onde se esconder, até que cessem".
Logo se vê que nem tudo que é maravilhoso é 'ímpar'.
Em um livro de trekking para pequenos seres, consta: "Eles se erguem da ampla planície do colo e formam um belo e sufocante vale, que conduz à... outra planície. Se resolver escalá-los, no cume encontrarás um pira, em homenagem aos Deuses. Não a acenda, pequeno montanhista, porque ruidosos terremotos o jogarão ao céus e, ainda que não morra ao aterrisar nas macias planícies, pode ser que a esta altura, todo aquele mundo esteja assolado por tremores, e não terás onde se esconder, até que cessem".
9. Quando elas, de vestido ou saia, se esticam pra pegar alguma coisa no alto.
Ou embaixo, ou se levantam, ou se sentam... enfim, de vestido ou saia fica bom até quando respiram. Xico Sá desenvolve... http://xicosa.blogfolha.uol.com.br/2012/10/31/nada-como-uma-mulher-de-vestido/
Ou embaixo, ou se levantam, ou se sentam... enfim, de vestido ou saia fica bom até quando respiram. Xico Sá desenvolve... http://xicosa.blogfolha.uol.com.br/2012/10/31/nada-como-uma-mulher-de-vestido/
10. O jeito como acordam de cabelo bagunçado e pijama velhinho.
11. Ela deitada de bruços só de calcinha.
Me fala um jeito que a mulher não fica bem quando estiver só de calcinha...
Me fala um jeito que a mulher não fica bem quando estiver só de calcinha...
12. Cabelo cheiroso.
'Tchê', e o pescoço?! não esquece do pescocin pelo amor de Deus! Pegue ele por trás, na nuca, e aí pode cheirar o cabelo à vontade.
'Tchê', e o pescoço?! não esquece do pescocin pelo amor de Deus! Pegue ele por trás, na nuca, e aí pode cheirar o cabelo à vontade.
13. A manha que elas fazem quando chega a hora de nos separarmos.
Uma doce meiguice.
Uma doce meiguice.
14. Ela mexendo no cabelo.
No dela, ou no meu.
No dela, ou no meu.
15. O jeito como andam descalças na ponta do pé quando o chão está frio.
Os diversos retesamentos causados pelo frio e os bons dias nos quais eles recebem e capitulam ante a invasão do calor rejuvenescedor.
Os diversos retesamentos causados pelo frio e os bons dias nos quais eles recebem e capitulam ante a invasão do calor rejuvenescedor.
16. Ela lambendo os dedos depois de comer uma coisa muito gostosa.
Afinal nem só de luxúria vivem os pecadores...
Afinal nem só de luxúria vivem os pecadores...
17. Inteligência.
Emocional, bem humorada, não do tipo erudita-formal, torna a mulher incrivelmente charmosa e sensual.
Emocional, bem humorada, não do tipo erudita-formal, torna a mulher incrivelmente charmosa e sensual.
18. Quando ela anda pela casa só de calcinha.
Eu não falei que só de calcinha é um look que não tem erro!?
Eu não falei que só de calcinha é um look que não tem erro!?
19. Pés bonitos.
20. A pose delas de fazer xixi, com as perninhas viradas pra dentro e com a calcinha abaixada.
A mulher no banheiro, delicadamente envergonhada da intimidade do teu olhar.
A mulher no banheiro, delicadamente envergonhada da intimidade do teu olhar.
21. Cabelo molhado.
Na rua, a qualquer momento do dia, indicando um banho tomado fora de hora.
Na rua, a qualquer momento do dia, indicando um banho tomado fora de hora.
22. O jeito dela de se preocupar com a gente.
23. Um decote bem utilizado.
Eu não julgaria mal um decote mais ousado e não acredito na existência de decote vulgar. Veja um espécime em http://revistaquem.globo.com/QUEM-News/noticia/2012/10/jennifer-aniston-deixa-parte-dos-seios-mostra-em-jantar-de-gala.html
Eu não julgaria mal um decote mais ousado e não acredito na existência de decote vulgar. Veja um espécime em http://revistaquem.globo.com/QUEM-News/noticia/2012/10/jennifer-aniston-deixa-parte-dos-seios-mostra-em-jantar-de-gala.html
24. Quando ela morde a pontinha do óculos.
A pontinha do lápis, o canudinho, um bombom, um morango ou, por falta de opção, o teu ombro!
A pontinha do lápis, o canudinho, um bombom, um morango ou, por falta de opção, o teu ombro!
25. Coque bagunçado.
26. A forma na qual o cabelo cai naturalmente no rosto e o jeito dela de tentar arrumar.
27. Ela tomando sorvete.
Muito explícito, não vou comentar... rs.
Muito explícito, não vou comentar... rs.
28. Quando ela fica com frio e usa nosso moletom.
29. Vestido comprido e pés descalços.
Pisando na areia ou na terra, molhada da chuva, dançando sem música e te olhando nos olhos.
Pisando na areia ou na terra, molhada da chuva, dançando sem música e te olhando nos olhos.
30. Ela passando do banheiro pro quarto só de calcinha pra se arrumar.
Sem nada e tranquilamente e, ao te ver observando, surpresa por só então perceber-se nua (muito bíblico isso...).
Sem nada e tranquilamente e, ao te ver observando, surpresa por só então perceber-se nua (muito bíblico isso...).
31. Covinha nas costas (vulgo “apoio pra dedão”).
Com uma calça de ginástica, com cós baixo.
Com uma calça de ginástica, com cós baixo.
32. O jeito de andar.
Com um ritmo e melodia, que todas as partes parecem formar uma banda que toca uma música só para você.
Com um ritmo e melodia, que todas as partes parecem formar uma banda que toca uma música só para você.
33. Jeans + blusinha branca.
Bom exemplo de como as mulheres às vezes subestimam o forte poder e apelo sedutor de visuais básicos.
Bom exemplo de como as mulheres às vezes subestimam o forte poder e apelo sedutor de visuais básicos.
34. Tatuagem (principalmente as que só dão pra ver uma parte e deixam todo mundo curioso pra ver o final).
Sei lá, acho que a tatuagem não precisa provocar a curiosidade sexual. Acho que as marcas na pele feminina, lhes dão uma realidade importante, que equilibra o arrebatamento etéreo, sanguíneo e onírico que a beleza nos causa e nos resgata desses desencarnes fugidios que nos acometem a sua nudez.
Sei lá, acho que a tatuagem não precisa provocar a curiosidade sexual. Acho que as marcas na pele feminina, lhes dão uma realidade importante, que equilibra o arrebatamento etéreo, sanguíneo e onírico que a beleza nos causa e nos resgata desses desencarnes fugidios que nos acometem a sua nudez.
35. Um pouco de gordurinha pra ter onde pegar.
Existe uma linha mágica, chamada Tesão, que divide o corpo ideal do corpo real. Depois dela, preocupar-se com os detalhes é perder o Todo. Ultrapassada a linha, que é o que deve ter acontecido se você está pegando em algum lugar (só pegue se tiver realmente vontade), é na pessoa real e não na modelo da revista que sua cabeça vai/deve estar.
Existe uma linha mágica, chamada Tesão, que divide o corpo ideal do corpo real. Depois dela, preocupar-se com os detalhes é perder o Todo. Ultrapassada a linha, que é o que deve ter acontecido se você está pegando em algum lugar (só pegue se tiver realmente vontade), é na pessoa real e não na modelo da revista que sua cabeça vai/deve estar.
36. Atitude.
Quando o que os outros esperam de você já não conta tanto. Quando você já aceita o que os outros pensam de você. Quando você mesmo pára de se cobrar para ser o que acha que deveria ser e se aceita do jeito que é, e curte isso. Essa atitude fica cada vez mais entranhada em você e isso é de matar de tão bom...
Quando o que os outros esperam de você já não conta tanto. Quando você já aceita o que os outros pensam de você. Quando você mesmo pára de se cobrar para ser o que acha que deveria ser e se aceita do jeito que é, e curte isso. Essa atitude fica cada vez mais entranhada em você e isso é de matar de tão bom...
37. Quando arranham sem machucar.
Isso me fez pensar num hipotético filme Tropa de Elite 3. No treinamento, em vez de rolar na lama e sambar no arame farpado, uma mulher seduz, pega e arranha o aspirante. Se ele não resistir a pressão, ele pede prá sair. Meio sem sentido. Traduzindo: Dá prá segurar uma machucadinha pelo momento, ou não?!
Isso me fez pensar num hipotético filme Tropa de Elite 3. No treinamento, em vez de rolar na lama e sambar no arame farpado, uma mulher seduz, pega e arranha o aspirante. Se ele não resistir a pressão, ele pede prá sair. Meio sem sentido. Traduzindo: Dá prá segurar uma machucadinha pelo momento, ou não?!
38. O rosto dela visto de cima quando dorme no nosso peito.
Aninhado, tranquilo, com respiração pausada, revelando um leve sonho e, se for o seu dia de sorte, vai ver escapar - daquele mundo de lá para esse de cá - um pequeno sorriso maroto e feliz, com traços de cumplicidade e retrogosto de carinho e proteção.
Aninhado, tranquilo, com respiração pausada, revelando um leve sonho e, se for o seu dia de sorte, vai ver escapar - daquele mundo de lá para esse de cá - um pequeno sorriso maroto e feliz, com traços de cumplicidade e retrogosto de carinho e proteção.
39. Quando ela acorda de calcinha e se espreguiça gostosamente.
E você teve o tempo e o bom-senso para ficar apreciando ela dormindo para poder coroar o deleite nesse exato momento.
E você teve o tempo e o bom-senso para ficar apreciando ela dormindo para poder coroar o deleite nesse exato momento.
40. Blusa que deixa um ombro de fora.
E o ombro leva ao trapézio, e do trapézio ao pescoço, e - fechando os olhos - do pescoço cheiroso... aonde mais você quiser ir.
E o ombro leva ao trapézio, e do trapézio ao pescoço, e - fechando os olhos - do pescoço cheiroso... aonde mais você quiser ir.
41. Ela totalmente depilada.
É verdade; mas o Xico Sá também tem certa razão: http://xicosa.blogfolha.uol.com.br/2012/09/03/manifesto-por-uma-politica-pubiana-responsavel/
É verdade; mas o Xico Sá também tem certa razão: http://xicosa.blogfolha.uol.com.br/2012/09/03/manifesto-por-uma-politica-pubiana-responsavel/
42. Blusa sem sutiã.
Prática em desuso hoje em dia, o que é um dos motivos da minha descrença no princípio jurídico da proibição do retrocesso dos avanços civilizatórios. Sem sutiã, ou com os modelos mais delicados, a forma dos seios se revela, e neles livre o movimento, e eles dançam. E a dança...
"É concentração, num momento,
da humana graça natural
...
A dança-não vento nos ramos,
seiva, força, perene estar,
um estar entre céu e chão,
novo domínio conquistado,
onde busque nossa paixão,
libertar-se por todo lado"
(Carlos Drummond de Andrade).
Prática em desuso hoje em dia, o que é um dos motivos da minha descrença no princípio jurídico da proibição do retrocesso dos avanços civilizatórios. Sem sutiã, ou com os modelos mais delicados, a forma dos seios se revela, e neles livre o movimento, e eles dançam. E a dança...
"É concentração, num momento,
da humana graça natural
...
A dança-não vento nos ramos,
seiva, força, perene estar,
um estar entre céu e chão,
novo domínio conquistado,
onde busque nossa paixão,
libertar-se por todo lado"
(Carlos Drummond de Andrade).
43. O cheiro delicioso que deixam na casa depois do banho.
É que a água levou os outros cheiros que nela se infiltraram e acordou os próprios cheiros dela, que agora circulam livremente, como crianças a brincar na rua.
É que a água levou os outros cheiros que nela se infiltraram e acordou os próprios cheiros dela, que agora circulam livremente, como crianças a brincar na rua.
44. Quando elas não usam maquiagem.
E ainda assim continuam tão lindas, às vezes mais lindas ainda.
E ainda assim continuam tão lindas, às vezes mais lindas ainda.
45. Ossinho saliente na cintura.
Faz saltar, da evidência da sexualidade, que aquele corpo é forte e frágil ao mesmo tempo.
Faz saltar, da evidência da sexualidade, que aquele corpo é forte e frágil ao mesmo tempo.
46. Sentir todo o corpo dela quando dormimos de conchinha.
Uma das mais altas expressões da simetria dos opostos feminino e masculino, realidade viva e energética da qual deve ter nascido o símbolo do Yin e Yang e todas as demais complementaridades harmônicas.
Uma das mais altas expressões da simetria dos opostos feminino e masculino, realidade viva e energética da qual deve ter nascido o símbolo do Yin e Yang e todas as demais complementaridades harmônicas.
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sexta-feira, 12 de outubro de 2012
Cada vez mais...
Cada vez mais prefiro,
Ser a Ter,
Ser a Saber,
Ser a Fazer,
E o tirano em mim, cada vez menos me obriga a,
Manter-me numa distância segura dos outros,
Dis(trair)-me de mim,
Usar o controle remoto do 'Click',
Mas ainda me assola,
Prometer,
Pertencer,
Amar,
E me amola,
Desejar,
Lutar,
Fracassar,
E me amola ainda mais,
Fingir não ser, do que fingir ser,
Deixar de pagar ao bem, do que deixar de pagar ao mal,
Errar por omissão, do que errar por ação,
E me define,
Andar por aí como se buscasse,
Mesmo sendo sem graça alcançar miragens,
Pois o bom mesmo é encontrar-se,
Con1sigo novo e belo,
Que só se revela,
Quando o outro deixa de ser o Outro,
E o eu-exilado é recebido com alegria de volta ao Lar.
Ser a Ter,
Ser a Saber,
Ser a Fazer,
E o tirano em mim, cada vez menos me obriga a,
Manter-me numa distância segura dos outros,
Dis(trair)-me de mim,
Usar o controle remoto do 'Click',
Mas ainda me assola,
Prometer,
Pertencer,
Amar,
E me amola,
Desejar,
Lutar,
Fracassar,
E me amola ainda mais,
Fingir não ser, do que fingir ser,
Deixar de pagar ao bem, do que deixar de pagar ao mal,
Errar por omissão, do que errar por ação,
E me define,
Andar por aí como se buscasse,
Mesmo sendo sem graça alcançar miragens,
Pois o bom mesmo é encontrar-se,
Con1sigo novo e belo,
Que só se revela,
Quando o outro deixa de ser o Outro,
E o eu-exilado é recebido com alegria de volta ao Lar.
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sexta-feira, 28 de setembro de 2012
Ferreira Gullar: cabra bom.
Veja a entrevista completa em: http://veja.abril.com.br/blog/ricardo-setti/politica-cia/ferreira-gullar-uma-visao-critica-das-coisas/
E os trechos ímpares:
"A luta dos trabalhadores, o movimento sindical, a tomada de consciência dos direitos, tudo isso fez melhorar a relação capital-trabalho. O que está errado é achar, como Marx diz, que quem produza riqueza é o trabalhador e o capitalista só o explora. É bobagem. Sem a empresa, não existe riqueza. Um depende do outro. O empresário é um intelectual que, em vez de escrever poesias, monta empresas. É um criador, um indivíduo que faz coisas novas."
"A força que torna o capitalismo invencível vem dessa origem natural indiscutível. Agora mesmo, enquanto falamos, há milhões de pessoas inventando maneiras novas de ganhar dinheiro. É óbvio que um governo central com seis burocratas dirigindo um país não vai ter a capacidade de ditar rumos a esses milhões de pessoas. Não tem cabimento."
"Não posso defender um regime sob o qual eu não gostaria de viver. Não posso admirar um país do qual eu não possa sair na hora que quiser. Não dá para defender um regime em que não se possa publicar um livro sem pedir permissão ao governo. Apesar disso, há uma porção de intelectuais brasileiros que defendem Cuba, mas, obviamente, não querem viver lá de jeito nenhum. É difícil para as pessoas reconhecer que estavam erradas, que passaram a vida toda pregando uma coisa que nunca deu certo."
"O capitalismo é uma fatalidade, não tem saída. Ele produz desigualdade e exploração. A natureza é injusta. A justiça é uma invenção humana. Um nasce inteligente e o outro burro. Um nasce inteligente, o outro aleijado. Quem quer corrigir essa injustiça somos nós. A capacidade criativa do capitalismo é fundamental para a sociedade se desenvolver, para a solução da desigualdade, porque é só a produção da riqueza que resolve isso. A função do estado é impedir que o capitalismo leve a exploração ao nível que ele quer levar."
"Quando ouço alguém dizer que as famílias internam os filhos porque querem se ver livres deles, só posso pensar que essa pessoa gosta dos meus filhos mais do que eu. Nunca viu meu filho, mas ama meu filho mais do que eu. Absurdo. Você não sabe o que é uma família ter um filho esquizofrênico. Além do problema do tratamento, existe o desespero de não saber o que fazer."
"O mundo aparentemente está explicado, mas não está. Viver em um mundo sem explicação alguma ia deixar todo mundo louco. Mas nenhuma explicação explica tudo, nem poderia. Então de vez em quando o não explicado se revela, e é isso que faz nascer a poesia. Só aquilo que não se sabe pode ser poesia."
"Com o avanço da idade, diminuem a vontade e a inspiração. A gente passa a se espantar menos. Tem poeta que não se espanta mais, mas insiste em continuar escrevendo, não quer se dar por vencido. Então ele começa a escrever bobagens ou coisas sem a mesma qualidade das que produzia antes. Saber fazer ele sabe, mas é só técnica, falta alguma coisa. Não se faz poesia a frio. Isso não vai acontecer comigo. Sem o espanto, eu não faço.
Escrever só para fazer de conta, não faço. Eu vou morrer. O poeta que tem dentro de mim também. Tudo acaba um dia. Quando o poeta dentro de mim morrer, não escrevo mais. Não vou forçar a barra. Isso não vai acontecer."
Grifos meus.
PS. Contei os trechos, e embora cada um seja ímpar em si, no conjunto (8) eles são pares.
E os trechos ímpares:
"A luta dos trabalhadores, o movimento sindical, a tomada de consciência dos direitos, tudo isso fez melhorar a relação capital-trabalho. O que está errado é achar, como Marx diz, que quem produza riqueza é o trabalhador e o capitalista só o explora. É bobagem. Sem a empresa, não existe riqueza. Um depende do outro. O empresário é um intelectual que, em vez de escrever poesias, monta empresas. É um criador, um indivíduo que faz coisas novas."
"A força que torna o capitalismo invencível vem dessa origem natural indiscutível. Agora mesmo, enquanto falamos, há milhões de pessoas inventando maneiras novas de ganhar dinheiro. É óbvio que um governo central com seis burocratas dirigindo um país não vai ter a capacidade de ditar rumos a esses milhões de pessoas. Não tem cabimento."
"Não posso defender um regime sob o qual eu não gostaria de viver. Não posso admirar um país do qual eu não possa sair na hora que quiser. Não dá para defender um regime em que não se possa publicar um livro sem pedir permissão ao governo. Apesar disso, há uma porção de intelectuais brasileiros que defendem Cuba, mas, obviamente, não querem viver lá de jeito nenhum. É difícil para as pessoas reconhecer que estavam erradas, que passaram a vida toda pregando uma coisa que nunca deu certo."
"O capitalismo é uma fatalidade, não tem saída. Ele produz desigualdade e exploração. A natureza é injusta. A justiça é uma invenção humana. Um nasce inteligente e o outro burro. Um nasce inteligente, o outro aleijado. Quem quer corrigir essa injustiça somos nós. A capacidade criativa do capitalismo é fundamental para a sociedade se desenvolver, para a solução da desigualdade, porque é só a produção da riqueza que resolve isso. A função do estado é impedir que o capitalismo leve a exploração ao nível que ele quer levar."
"Quando ouço alguém dizer que as famílias internam os filhos porque querem se ver livres deles, só posso pensar que essa pessoa gosta dos meus filhos mais do que eu. Nunca viu meu filho, mas ama meu filho mais do que eu. Absurdo. Você não sabe o que é uma família ter um filho esquizofrênico. Além do problema do tratamento, existe o desespero de não saber o que fazer."
"O mundo aparentemente está explicado, mas não está. Viver em um mundo sem explicação alguma ia deixar todo mundo louco. Mas nenhuma explicação explica tudo, nem poderia. Então de vez em quando o não explicado se revela, e é isso que faz nascer a poesia. Só aquilo que não se sabe pode ser poesia."
"Com o avanço da idade, diminuem a vontade e a inspiração. A gente passa a se espantar menos. Tem poeta que não se espanta mais, mas insiste em continuar escrevendo, não quer se dar por vencido. Então ele começa a escrever bobagens ou coisas sem a mesma qualidade das que produzia antes. Saber fazer ele sabe, mas é só técnica, falta alguma coisa. Não se faz poesia a frio. Isso não vai acontecer comigo. Sem o espanto, eu não faço.
Escrever só para fazer de conta, não faço. Eu vou morrer. O poeta que tem dentro de mim também. Tudo acaba um dia. Quando o poeta dentro de mim morrer, não escrevo mais. Não vou forçar a barra. Isso não vai acontecer."
Grifos meus.
PS. Contei os trechos, e embora cada um seja ímpar em si, no conjunto (8) eles são pares.
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
Torna-te o que tu és... Como assim?
Há alguns anos uma frase tem me intrigado e ainda que certo de sua verdade nunca consegui alcançar-lhe o significado:
"Torna-te o que tu és!"
Pois não é que hoje, folheando despretensiosamente uma revista, leio a entrevista de Ana Cecília Carvalho (autora de 'O livro neurótico de receitas') e me deparo com a solução:
"Deixe de ser o que tu eras e torna-te o que tu és!"
Há também a contribuição da Eliane Brum, que tinha um con-texto maior, mas que cai muito bem aqui: "Sempre fomos, mas tornar-se é saber que se é."
E aí vejo que voltamos a outro mandamento central - "Conhece-te a ti mesmo" - ou, em latim, nosce te ipsum.
"Torna-te o que tu és!"
Pois não é que hoje, folheando despretensiosamente uma revista, leio a entrevista de Ana Cecília Carvalho (autora de 'O livro neurótico de receitas') e me deparo com a solução:
"Deixe de ser o que tu eras e torna-te o que tu és!"
Há também a contribuição da Eliane Brum, que tinha um con-texto maior, mas que cai muito bem aqui: "Sempre fomos, mas tornar-se é saber que se é."
E aí vejo que voltamos a outro mandamento central - "Conhece-te a ti mesmo" - ou, em latim, nosce te ipsum.
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sábado, 1 de setembro de 2012
Um clássico (sempre atual): Força para lutar, leveza para perdoar e discernimento para distinguir a hora de cada coisa.
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quinta-feira, 31 de maio de 2012
Entrevista com uma baita de uma pessoa (Eliane Brum):
Primeira parte: Aqui, dentre outras coisas,você descobre que escutar de verdade é uma postura pessoal que lhe enriquece se transcende o utilitarismo nas suas atividades profissionais; http://www.youtube.com/watch?v=rln0WqI6tI8&feature=relmfu
Segunda parte: Aqui, dentre outras coisas, você aprende que contar a verdade, se for uma única verdade dentre as tantas verdades que a circundam, equivale, embora não seja, a uma mentira ; http://www.youtube.com/watch?v=26shR0oQ2Is&feature=relmfu
Terceira parte: Aqui, dentre outras coisas, você pode ver ou rever o fato de que 'grandes' pessoas não só admitem seus erros, como gostam e precisam muito dessa atitude; http://www.youtube.com/watch?v=DBenfWmTTu8&feature=relmfu
Quarta parte: Aqui, dentre outras coisas, aprendemos que as pessoas com as quais nos relacionamos são mais importantes do que objetivamos delas por obra de nossa profissão; http://www.youtube.com/watch?v=Q5Pi35pB0ds&feature=relmfu
Quinta parte: Aqui, dentre outras coisas, ficamos sabendo de uma galinha de verdade que foi flagrada em atitude suspeita e presa pela polícia; http://www.youtube.com/watch?v=XZISVP78NoI&feature=relmfu
Sexta parte: Aqui, dentre outras coisas: suas histórias provocam os nossos próprios constrangimentos, ela, como escritora, dá a mão ao leitor, mas para passar em lugares estranhos e difíceis; http://www.youtube.com/watch?feature=endscreen&NR=1&v=DIf2X6oq8EM
Enfim, espero que gostem.
PS. Se o link não funcionar, copiem e colem no navegador.
Primeira parte: Aqui, dentre outras coisas,você descobre que escutar de verdade é uma postura pessoal que lhe enriquece se transcende o utilitarismo nas suas atividades profissionais; http://www.youtube.com/watch?v=rln0WqI6tI8&feature=relmfu
Segunda parte: Aqui, dentre outras coisas, você aprende que contar a verdade, se for uma única verdade dentre as tantas verdades que a circundam, equivale, embora não seja, a uma mentira ; http://www.youtube.com/watch?v=26shR0oQ2Is&feature=relmfu
Terceira parte: Aqui, dentre outras coisas, você pode ver ou rever o fato de que 'grandes' pessoas não só admitem seus erros, como gostam e precisam muito dessa atitude; http://www.youtube.com/watch?v=DBenfWmTTu8&feature=relmfu
Quarta parte: Aqui, dentre outras coisas, aprendemos que as pessoas com as quais nos relacionamos são mais importantes do que objetivamos delas por obra de nossa profissão; http://www.youtube.com/watch?v=Q5Pi35pB0ds&feature=relmfu
Quinta parte: Aqui, dentre outras coisas, ficamos sabendo de uma galinha de verdade que foi flagrada em atitude suspeita e presa pela polícia; http://www.youtube.com/watch?v=XZISVP78NoI&feature=relmfu
Sexta parte: Aqui, dentre outras coisas: suas histórias provocam os nossos próprios constrangimentos, ela, como escritora, dá a mão ao leitor, mas para passar em lugares estranhos e difíceis; http://www.youtube.com/watch?feature=endscreen&NR=1&v=DIf2X6oq8EM
Enfim, espero que gostem.
PS. Se o link não funcionar, copiem e colem no navegador.
quinta-feira, 3 de maio de 2012
Conhecendo a floresta - Parte I
Num belo dia eu a vi como nunca mais veria. Tudo começou quando, corajosa e despretensiosamente, eu me afastei do centro da cidade, onde morava, e caminhando, e pensando, num liiiiiindo dia de sol, fui dar nos arredores da cidade.
Foi sentado num café, quando as leituras já não me distraiam, que levantei lentamente meus olhos e a vi, a mulher mais bela que eu havia visto neste mundo. Ela estava parada a minha frente, a uma certa distância, mas a sua presença era tão extensa que mesmo a essa distância me chegava o seu cheiro. Eu nunca havia sentido nada igual, não se tratava de um bom perfume qualquer, mas era o odor natural de uma virgindade, inconfundível, que não fazia sentido algum em estar ali, naquela parte da cidade.
O sol a iluminava toda. E eram tão perfeitas, sinuosas e harmônicas as suas partes, que eu só sabia que ela as tinha por obra intelectual, pois olhando para ela, dessa vez eu não via partes. Juro que mal vi os mais maravilhosos seios e o templo da bunda com os quais a mãe natureza havia presenteado esta filha, porque ela toda, transcendia o meu olhar comum.
Nesse dia, de nosso primeiro encontro, o irmão vento se divertia junto com seu resplandescente irmão mais velho. Assoprava-a por todos os lados. Ao redor do seu corpo, dava voltas, em suas copas buscava, sem sucesso, embaralhar-lhe os cabelos crespos e viçosos e quando soprava por baixo, me inebriava com o cheiro de terra fresca, fértil.
Não me era permitido ficar indiferente a ela. Desta vez não tive que me esforçar para fazer ou não fazer algo. Simplesmente me levantei e, a passos lentos me dirigi decididamente a ela. Lembro que demorei a chegar. Foi aí que percebi que era a sua imponente que a fazia parecer próxima, enquanto distante. Assim, nesse primeiro dia, não a alcancei, embora tenha me apresentado. Ela, com esse jeito próximo-distante, me faz caminhar muito mais do que eu desejava, mas também tornou suave o que era uma caminhada íngreme.
Meu desejo era voltar a ela muitas vezes. Sentencie-me a esse destino incerto com a maior das alegrias. Não contei a ela sobre meus propósitos para que ela não me tivesse já por seu. Mas ao tocá-la enquanto me despedia, senti-a impassivelmente sabendo o que se passava comigo.
...
(Continua...em algum ditoso dia futuro!)
Num belo dia eu a vi como nunca mais veria. Tudo começou quando, corajosa e despretensiosamente, eu me afastei do centro da cidade, onde morava, e caminhando, e pensando, num liiiiiindo dia de sol, fui dar nos arredores da cidade.
Foi sentado num café, quando as leituras já não me distraiam, que levantei lentamente meus olhos e a vi, a mulher mais bela que eu havia visto neste mundo. Ela estava parada a minha frente, a uma certa distância, mas a sua presença era tão extensa que mesmo a essa distância me chegava o seu cheiro. Eu nunca havia sentido nada igual, não se tratava de um bom perfume qualquer, mas era o odor natural de uma virgindade, inconfundível, que não fazia sentido algum em estar ali, naquela parte da cidade.
O sol a iluminava toda. E eram tão perfeitas, sinuosas e harmônicas as suas partes, que eu só sabia que ela as tinha por obra intelectual, pois olhando para ela, dessa vez eu não via partes. Juro que mal vi os mais maravilhosos seios e o templo da bunda com os quais a mãe natureza havia presenteado esta filha, porque ela toda, transcendia o meu olhar comum.
Nesse dia, de nosso primeiro encontro, o irmão vento se divertia junto com seu resplandescente irmão mais velho. Assoprava-a por todos os lados. Ao redor do seu corpo, dava voltas, em suas copas buscava, sem sucesso, embaralhar-lhe os cabelos crespos e viçosos e quando soprava por baixo, me inebriava com o cheiro de terra fresca, fértil.
Não me era permitido ficar indiferente a ela. Desta vez não tive que me esforçar para fazer ou não fazer algo. Simplesmente me levantei e, a passos lentos me dirigi decididamente a ela. Lembro que demorei a chegar. Foi aí que percebi que era a sua imponente que a fazia parecer próxima, enquanto distante. Assim, nesse primeiro dia, não a alcancei, embora tenha me apresentado. Ela, com esse jeito próximo-distante, me faz caminhar muito mais do que eu desejava, mas também tornou suave o que era uma caminhada íngreme.
Meu desejo era voltar a ela muitas vezes. Sentencie-me a esse destino incerto com a maior das alegrias. Não contei a ela sobre meus propósitos para que ela não me tivesse já por seu. Mas ao tocá-la enquanto me despedia, senti-a impassivelmente sabendo o que se passava comigo.
...
(Continua...em algum ditoso dia futuro!)
quinta-feira, 12 de abril de 2012
Vivia minha vida de preso, pensando estar livre.
Agora vivo minha vida de preso e sou livre.
Talvez tenha sido condenado a viver muitas de minhas encarnações em uma vida só.
E sendo assim, é sempre pouco o tempo que tenho.
E ainda que tenha recebido muito do mundo, achava que era pouco o que recebi dos meus.
Mas muitas vidas para viver em uma só é muito, mesmo para mim. Mesmo para você.
Num mundo que te dá mais do que você pode receber e me pede mais do que eu posso dar.
Uma parte desta minha vida já se foi, as outras, como todas, a cada dia floresce, e se desfaz.
Eu mesmo me consumo num 'como se' fosse. Como se fosse real, como se fosse importante, como se fosse durar, mas se durar, isso já não me pertence mais...
Deixo obras incompletas, que não saberei se são 'esqueletos da Encol' ou sementes.
Deixo porque tenho outras vidas para viver, todas agora, nesta vida, vocês não podem me ajudar nisso.
Para outras encarnações postergo a devolução do amor que recebo nesta, e isto as vezes me imerge numa suave infelicidade.
Mas aos meus, e eles sabe quem são, eu dedico as brechas de meu coração.
Com amor,
Aureo
Agora vivo minha vida de preso e sou livre.
Talvez tenha sido condenado a viver muitas de minhas encarnações em uma vida só.
E sendo assim, é sempre pouco o tempo que tenho.
E ainda que tenha recebido muito do mundo, achava que era pouco o que recebi dos meus.
Mas muitas vidas para viver em uma só é muito, mesmo para mim. Mesmo para você.
Num mundo que te dá mais do que você pode receber e me pede mais do que eu posso dar.
Uma parte desta minha vida já se foi, as outras, como todas, a cada dia floresce, e se desfaz.
Eu mesmo me consumo num 'como se' fosse. Como se fosse real, como se fosse importante, como se fosse durar, mas se durar, isso já não me pertence mais...
Deixo obras incompletas, que não saberei se são 'esqueletos da Encol' ou sementes.
Deixo porque tenho outras vidas para viver, todas agora, nesta vida, vocês não podem me ajudar nisso.
Para outras encarnações postergo a devolução do amor que recebo nesta, e isto as vezes me imerge numa suave infelicidade.
Mas aos meus, e eles sabe quem são, eu dedico as brechas de meu coração.
Com amor,
Aureo
domingo, 17 de julho de 2011
debates
O que me agrada em ouvir os meus amigos discutindo é que aprendo mais que eles e com menos esforço e desgaste que eles enfrentam ao, interminavelmente, discutirem e argumentarem em busca da defesa de si proprios.
quarta-feira, 13 de julho de 2011
IGray
Passo a desenvolver novos índices interessantes, a partir da expansão da ideia do IBOV (índice bovespa).
IGray: é o índice Dorian Gray de uma pessoa. Dorian Gray é o protagonista do romance "O retrato de Dorian Gray" de Oscar Wilde.
Nele um belo e inocente rapaz consegue, por meio obscuro, livrar-se de toda a feiúra e imoralidade que poderia lhe marcar a partir de suas práticas espúrias e continuar mostrando-se impecavelmente são em público, no seu dia-a-dia, enquanto o seu lado mau, humano e mesmo pútrido é mantido escondido das pessoas, de todas ou em geral, e sempre ou na maioria dos momentos.
Assim, quando alguém nos surpreende com um comportamento selvagem, primitivo, instintivo e até destrutivo, enquanto que no cotidiano esta pessoa se demonstra exatamente o contrário, dizemos que ela tem um IGray alto, ou seja, assemelha-se ao Dorian Gray ao mostrar a sua pureza e esconder a sujeira.
Todos temos um IGray maior ou menor. Quem é sempre bom e justo, pode, embora não necessariamente, indicar que "está escondendo sua alma sangrenta no sótão". é uma possibilidade do IGray.
Quem mostra em um momento uma explosão de instinto, permite um cálculo melhor do IGray ao permitir a comparação daquilo com o que a pessoa demonstra normalmente.
IGray baixo é uma face que é coerente em intensidade e em suas variações, de forma que estas não surpreendem em constraste com a personalidade normal, mas se harmonizam ou mesmo a reafirmam.
IGray: é o índice Dorian Gray de uma pessoa. Dorian Gray é o protagonista do romance "O retrato de Dorian Gray" de Oscar Wilde.
Nele um belo e inocente rapaz consegue, por meio obscuro, livrar-se de toda a feiúra e imoralidade que poderia lhe marcar a partir de suas práticas espúrias e continuar mostrando-se impecavelmente são em público, no seu dia-a-dia, enquanto o seu lado mau, humano e mesmo pútrido é mantido escondido das pessoas, de todas ou em geral, e sempre ou na maioria dos momentos.
Assim, quando alguém nos surpreende com um comportamento selvagem, primitivo, instintivo e até destrutivo, enquanto que no cotidiano esta pessoa se demonstra exatamente o contrário, dizemos que ela tem um IGray alto, ou seja, assemelha-se ao Dorian Gray ao mostrar a sua pureza e esconder a sujeira.
Todos temos um IGray maior ou menor. Quem é sempre bom e justo, pode, embora não necessariamente, indicar que "está escondendo sua alma sangrenta no sótão". é uma possibilidade do IGray.
Quem mostra em um momento uma explosão de instinto, permite um cálculo melhor do IGray ao permitir a comparação daquilo com o que a pessoa demonstra normalmente.
IGray baixo é uma face que é coerente em intensidade e em suas variações, de forma que estas não surpreendem em constraste com a personalidade normal, mas se harmonizam ou mesmo a reafirmam.
domingo, 6 de março de 2011
Porque a realidade objetiva decorre do subjetivo, e não o contrário (relaxa, é apenas um contraponto cíclico!)
1. O que vejo em mim, vejo lá fora (projeção).
2. A partir deste jeito que percebo o mundo, é que defino como me comporto com ele.
3. As pessoas então, se comportam, em uma certa medida, reagindo a minhas ações, agindo comigo este conjunto de pessoas - o mundo - como eu agi com ele (é aqui que dizemos que nosso comportamento é baseado na realidade objetiva externa...)
4. Enfim, o que fiz baseado no que vi no mundo, é o que fiz baseado no que vejo em mim.
5. Solução: nosce te ipsum.
2. A partir deste jeito que percebo o mundo, é que defino como me comporto com ele.
3. As pessoas então, se comportam, em uma certa medida, reagindo a minhas ações, agindo comigo este conjunto de pessoas - o mundo - como eu agi com ele (é aqui que dizemos que nosso comportamento é baseado na realidade objetiva externa...)
4. Enfim, o que fiz baseado no que vi no mundo, é o que fiz baseado no que vejo em mim.
5. Solução: nosce te ipsum.
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domingo, 5 de dezembro de 2010
Consciência tranquila, memória ruim.
Tem um ditado que diz que uma consciência tranquila pode se basear em uma memória ruim. Abaixo um texto interessante sobre o tema.
A guerra é péssima para a memória
A dificuldade para lembrar e assumir os episódios mais traumáticos do passado é comum a pessoas e países. Cada um remodela sua lembrança, e falta tempo para assimilar uma história global
Jacinto Antón
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Visite o site do El País: http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/elpais/2008/11/05/ult581u2893.jhtm
Matou alguém? "Não sei. Nunca se sabe. Todos atiram. Você atira..." Cirilo Carranza, 87 anos, não vacilou até agora. Abriu sua memória com uma exatidão surpreendente, lembrando fatos de 70 anos atrás: a marcha para o Ebro com a 13ª Brigada Internacional, entre campos onde os agricultores deixavam sua tarefa para animá-los levantando o punho e gritando "Viva a República!"; a travessia do rio em 25 de julho de 1938 às 24 horas. "Como passei? De barco, em silêncio; o medo o torna silencioso. Se havia perigo? Claro!"; o ataque da aviação na planície de Corbera - "Nos metralhou a esquadrilha de Morato, filhos da mãe, com seus Mecheresmits" [pronuncia assim, com stacato raivoso, e não Messerschmitts]. "Se nos apanham na serra de Pàndols, onde não se podia esconder, cavar, eu estaria morto"; o assalto "dos mouros, gente ruim, até hoje não posso nem vê-los"; a ocasião em que pela primeira vez em anos comeram bananas; os poloneses da brigada gritando "Curva!" - "Sabe o que significa? Sim, prostituta"; a retirada, "muito organizada", protegidos pela "Gloriosa, nossa aviação".
Ele lembrou, sorvendo seu café com leite e traçando linhas com os dedos sobre a mesa gasta do bar, posições e movimentos. Lembrou o conhaque com que enchia o cantil, as bolachas e o marmelo, o peso de seu fuzil, "um fuzil russo, mais alto que eu, muito ruim, que com dois tiros emperrava, sorte das bombas de mão". Mas em sua memória, embora haja mortos - "Às vezes tínhamos de enterrá-los porque cheiravam mal" -, Cirilo não mata ninguém, nem vê ninguém morrer. "Se você avança não pára porque alguém caiu, e se voltar, menos ainda; ninguém olha para trás."
O depoimento de Carranza, nascido em Barakaldo mas criado em Badalona, que se alistou como voluntário com 17 anos e, homem áspero mas honesto, continua fiel ao ideário revolucionário - "Quê? Você trabalhava no domingo? Que merda! Para isso fizemos a guerra?" -, é muito diferente do de outro veterano, de outra contenda, o alemão Peter Brill, 85 anos, piloto de caça da Luftwaffe na Segunda Guerra Mundial. Mas guarda pontos de contato em algo essencial: para ele também é difícil reconhecer que matou alguém.
No terraço de sua casa em Barcelona - curiosamente vizinha à de Jordi Pujol -, enquanto caem as sombras e revoa um par de morcegos, Brill evoca sua peripécia na Jagdgeschwader 77 (esquadrilha de caça). Começou seus vôos de combate na frente ocidental, nada menos que na operação Bodenplatte, o desesperado ataque de caças aos campos de pouso aliados na Bélgica e Holanda em janeiro de 1945. Depois passou para a frente leste.
O ex-piloto da Luftwaffe também lembra com pormenores, enquanto a brisa move suavemente as maquetes de aviões penduradas no quarto aberto para o terraço. Lembra a carlinga do Messerchmitt-109, que se fechava como um caixão. O conselho de "nunca ir para baixo" quando era perseguido por um Mustang, muito mais rápido ao picar. A ocasião em que o motor de seu avião parou a 8.000 metros sobre território russo, ou aquela em que os bombardeiros soviéticos se defenderam "lançando granadas de pára-quedas sobre nossos caças". Quarenta combates.
Não quer recordar se fez derrubadas até depois de um bom tempo de conversa. "Não digo!" então sim, quando a noite apagou seu interlocutor, chega a confidência: "Derrubei quatro russos. Os matei, com certeza. Você atira com tudo. O avião se destroça. Ninguém sai vivo. Não gosto de falar disso. Não estou orgulhoso."
O piloto octogenário, o velho soldado republicano... "A memória é o que a gente quer recordar", indica o historiador Ronald Fraser, autor de "Recuérdalo tú, y recuérdalo a otros" [Lembre você e lembre aos outros] (ed. Crítica), sobre a experiência de mais de 300 pessoas durante a Guerra Civil espanhola. "De todos esses entrevistados não encontrei nenhum que tivesse matado alguém", continua, agitando a cabeça enquanto bebe água no bar de seu hotel, durante uma visita a Barcelona. "É muito interessante, as pessoas não querem lembrar o que não é socialmente permitido." Como no caso de Carranza, de Brill ou daquele outro piloto, José Sandoval, ás da aviação republicana no comando de seu Chato, que nunca quis falar de suas derrubadas. "Sim, sim, é assim, muito curioso."
E é possível recuperar a memória global da história, com tanta lacuna? "Não, não há uma memória. A memória é subjetiva e individual. Cada um tem a sua. E é uma memória remodelada, uma rememória. Em boa parte, as pessoas montam suas próprias recordações. Não se pode confiar muito no relato objetivo. Mais nas motivações, porque se as pessoas não tivessem feito o que fizeram não teria acontecido o que aconteceu."
Para Fraser, a única materialização tangível da memória "são as fossas comuns, e mesmo nesse caso é preciso ir com muito cuidado, ser muito rigoroso. Já vi números muito exagerados em alguns lugares, em Valência, por exemplo. Deveria ser feito um controle refinado de tudo isso, em nível de Estado. Se não há um padrão, uma norma, cada região fará o seu a sua maneira e não conseguiremos cifras exatas e indiscutíveis".
Se as pessoas têm dificuldade para assumir seu passado, os países agem igualmente, ocultando ou negando os acontecimentos que para eles são traumáticos ou vergonhosos. Os japoneses insistem em ignorar sua responsabilidade e até negam a invasão da China. Os italianos deixavam passear de bicicleta por Roma o SS Erich Priebke, um dos carrascos das Fossas Ardeatinas.
Neste verão se viveu mais uma tentativa de fechar uma dessas grandes cicatrizes da memória que possui a vizinha França: o massacre de Oradour-sur-Glane, no Limousin. Em 10 de junho de 1944, efetivos da 2ª Divisão Panzer das Waffen-SS, a duríssima Das Reich, curtida e enrijecida na frente leste, assassinaram 642 pessoas - entre elas 245 mulheres, 207 crianças e o abade Chapelle, paradoxalmente partidário de Petain - e arrasaram a cidade em uma orgia de horror (chegou-se a atirar um menino ao forno do padeiro) vagamente justificada pelo suposto apoio da localidade à Resistência. Depois da guerra, na hora de julgar os fatos, a França se encontrou com a desagradável surpresa de que 14 dos SS acusados de participar do massacre eram alsacianos: 13 "Malgré nous" (incorporados à força ao exército nazista), mas também um voluntário. As sentenças foram muito brandas, o que provocou indignação por um lado, mas também o desagrado da Alsácia-Lorena, na consideração de que seus jovens tinham sido usados como bodes-expiatórios.
O assunto, a ponta do iceberg da participação francesa no exército de Hitler (47 mil alsacianos morreram ou desapareceram lutando sob as bandeiras nazistas no leste e um batalhão da Divisão das SS Carlos Magno, de voluntários franceses, esteve entre a nata dos defensores de Berlim), para não falar no colaboracionismo, continua sem estar totalmente resolvido. Os automóveis com placa dos departamentos da Alsácia foram tradicionalmente apedrejados em Oradour e no Limousin em geral, região onde os "maquisards" da Resistência foram muito castigados pelos nazistas (e não só ali: 105 homens acusados de fazer parte do maquis de Manises foram fuzilados em 12 de junho de 1944 nas Ardenas por um comando do 36º Regimento de Carros da Whermacht no qual também havia voluntários alsacianos).
Em seu livro sobre a sangrenta marcha da SS Das Reich através da França rumo à Normandia ("Das Reich", Pan Books, 1981), o historiador Max Hastings sugere que a conexão nacional com a chacina de Oradour poderia ser ainda mais sinistra: os nazistas teriam escolhido como alvo o povoado - um absurdo do ponto de vista militar - por causa de informações de uma fonte francesa ingênua ou mal-intencionada.
Em junho passado, no 64º aniversário do massacre, houve a enésima tentativa de reconciliação e do ato em memória das vítimas participaram Raphël Nisand, prefeito da alsaciana Schistigheim, que faz parte da comunidade urbana de Estrasburgo, e Jean Marie Bockel, que simbolicamente une a sua condição de secretário de Estado da Defesa e ex-combatente da Resistência o fato de ser alsaciano. Bockel reconheceu que é inegável que houve alsacianos que compartilharam a ideologia nazista, e ao mesmo tempo lembrou que entre os mártires de Oradour havia famílias alsacianas. O prefeito de Oradour, Raymond Frugier, é a favor da reconciliação, mas não muito antes teve de engolir o sapo de ver morrer de velhice, em sua cama e sem remorsos, com 86 anos, um dos piores sujeitos (e havia muitos), o sargento Heinz Barth, que se vangloriou diante de seu pelotão a caminho do povoado: "Hoje vocês vão ver correr sangue". Frugier disse: "Por crimes como esses uma pessoa não deveria ser perdoada".
Problemas com a memória como os de Oradour na França existem em todos os países. "Sim, claro", afirma Fraser. "A França não fez o que deveria fazer. Essas feridas demoram muito para sarar. Inclusive nos EUA de alguma maneira a brecha da Guerra Civil entre o norte e o sul se perpetuou por 150 anos. Na Espanha as feridas são maiores, especialmente entre os vencidos. Mas a sociedade espanhola está suficientemente madura para assimilar seu passado. É melhor assumir do que reprimir. Se não, sempre volta por caminhos inesperados."
Vocês, britânicos, também têm os seus, eu digo ao historiador; para não falar de que os incomodou ouvir que Montgomery era gay, aí está o recente problema com os gurkhas, as tropas mercenárias nepalesas que lutaram ferozmente pelo império e aos quais demoraram tanto a conceder direitos de cidadania. Inclusive dois vencedores da Segunda Guerra Mundial da Cruz de Vitória, a maior recompensa ao valor, Lachhiman Gurung, de 91 anos, e Tul Bahadur, de 86, tiveram de dar a cara e - como as legiões amotinadas do Reno diante de Germânico - mostrar suas cicatrizes nos tribunais.
Às vezes é mais fácil lutar com granadas contra os japoneses do que contra a memória fraca de um povo. "Sim, é incrível, essa gente que lutou na primeira linha por nós, tão valentes, e regateiam suas pensões. Na Grã-Bretanha temos outros casos: continuamos vivendo Dunquerque como uma vitória, quando foi uma grande derrota. Ou os bombardeios sobre a Alemanha: ainda se acredita que foram justificados, é difícil assumir que tanto sofrimento não serviu para encurtar a guerra. Esquecer, adaptar à memória a nossa conveniência, é uma reação humana comum, em nível mundial. Como você administra a memória tem a ver com o destino que tiveram as populações depois dos traumas. A Alemanha foi obrigada a assumir sua culpa em Nuremberg. Para o vencido a memória sempre é muito problemática."
Uma guerra fratricida é ruim para a memória. "E mais que isso. Na Espanha houve um grande silêncio entre os que a viveram. Ninguém falava disso com seus filhos. Silêncio e esquecimento. Creio que em seu foro íntimo, com o passar dos anos, todos, inclusive os vencedores, pensavam que nada valia a pena uma guerra civil. Agora parece que as pessoas estão dispostas a falar. Mas nunca se poderá fazer uma recuperação total. É preciso assumir as feridas que restaram do conflito."
Fraser duvida quando lhe pergunto se confrontar as pessoas com sua memória, fazê-las recordar, tem um valor catártico: "Eu não saberia dizer, mas houve um caso, um capitão de artilharia que eu entrevistei e que participou da tomada do Quartel de la Montaña. Depois de lembrar tudo, sofreu um infarto. Imagine, um homem que havia sobrevivido à guerra e eu quase o matei ao fazê-lo recordar."
A guerra é péssima para a memória
A dificuldade para lembrar e assumir os episódios mais traumáticos do passado é comum a pessoas e países. Cada um remodela sua lembrança, e falta tempo para assimilar uma história global
Jacinto Antón
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Visite o site do El País: http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/elpais/2008/11/05/ult581u2893.jhtm
Matou alguém? "Não sei. Nunca se sabe. Todos atiram. Você atira..." Cirilo Carranza, 87 anos, não vacilou até agora. Abriu sua memória com uma exatidão surpreendente, lembrando fatos de 70 anos atrás: a marcha para o Ebro com a 13ª Brigada Internacional, entre campos onde os agricultores deixavam sua tarefa para animá-los levantando o punho e gritando "Viva a República!"; a travessia do rio em 25 de julho de 1938 às 24 horas. "Como passei? De barco, em silêncio; o medo o torna silencioso. Se havia perigo? Claro!"; o ataque da aviação na planície de Corbera - "Nos metralhou a esquadrilha de Morato, filhos da mãe, com seus Mecheresmits" [pronuncia assim, com stacato raivoso, e não Messerschmitts]. "Se nos apanham na serra de Pàndols, onde não se podia esconder, cavar, eu estaria morto"; o assalto "dos mouros, gente ruim, até hoje não posso nem vê-los"; a ocasião em que pela primeira vez em anos comeram bananas; os poloneses da brigada gritando "Curva!" - "Sabe o que significa? Sim, prostituta"; a retirada, "muito organizada", protegidos pela "Gloriosa, nossa aviação".
Ele lembrou, sorvendo seu café com leite e traçando linhas com os dedos sobre a mesa gasta do bar, posições e movimentos. Lembrou o conhaque com que enchia o cantil, as bolachas e o marmelo, o peso de seu fuzil, "um fuzil russo, mais alto que eu, muito ruim, que com dois tiros emperrava, sorte das bombas de mão". Mas em sua memória, embora haja mortos - "Às vezes tínhamos de enterrá-los porque cheiravam mal" -, Cirilo não mata ninguém, nem vê ninguém morrer. "Se você avança não pára porque alguém caiu, e se voltar, menos ainda; ninguém olha para trás."
O depoimento de Carranza, nascido em Barakaldo mas criado em Badalona, que se alistou como voluntário com 17 anos e, homem áspero mas honesto, continua fiel ao ideário revolucionário - "Quê? Você trabalhava no domingo? Que merda! Para isso fizemos a guerra?" -, é muito diferente do de outro veterano, de outra contenda, o alemão Peter Brill, 85 anos, piloto de caça da Luftwaffe na Segunda Guerra Mundial. Mas guarda pontos de contato em algo essencial: para ele também é difícil reconhecer que matou alguém.
No terraço de sua casa em Barcelona - curiosamente vizinha à de Jordi Pujol -, enquanto caem as sombras e revoa um par de morcegos, Brill evoca sua peripécia na Jagdgeschwader 77 (esquadrilha de caça). Começou seus vôos de combate na frente ocidental, nada menos que na operação Bodenplatte, o desesperado ataque de caças aos campos de pouso aliados na Bélgica e Holanda em janeiro de 1945. Depois passou para a frente leste.
O ex-piloto da Luftwaffe também lembra com pormenores, enquanto a brisa move suavemente as maquetes de aviões penduradas no quarto aberto para o terraço. Lembra a carlinga do Messerchmitt-109, que se fechava como um caixão. O conselho de "nunca ir para baixo" quando era perseguido por um Mustang, muito mais rápido ao picar. A ocasião em que o motor de seu avião parou a 8.000 metros sobre território russo, ou aquela em que os bombardeiros soviéticos se defenderam "lançando granadas de pára-quedas sobre nossos caças". Quarenta combates.
Não quer recordar se fez derrubadas até depois de um bom tempo de conversa. "Não digo!" então sim, quando a noite apagou seu interlocutor, chega a confidência: "Derrubei quatro russos. Os matei, com certeza. Você atira com tudo. O avião se destroça. Ninguém sai vivo. Não gosto de falar disso. Não estou orgulhoso."
O piloto octogenário, o velho soldado republicano... "A memória é o que a gente quer recordar", indica o historiador Ronald Fraser, autor de "Recuérdalo tú, y recuérdalo a otros" [Lembre você e lembre aos outros] (ed. Crítica), sobre a experiência de mais de 300 pessoas durante a Guerra Civil espanhola. "De todos esses entrevistados não encontrei nenhum que tivesse matado alguém", continua, agitando a cabeça enquanto bebe água no bar de seu hotel, durante uma visita a Barcelona. "É muito interessante, as pessoas não querem lembrar o que não é socialmente permitido." Como no caso de Carranza, de Brill ou daquele outro piloto, José Sandoval, ás da aviação republicana no comando de seu Chato, que nunca quis falar de suas derrubadas. "Sim, sim, é assim, muito curioso."
E é possível recuperar a memória global da história, com tanta lacuna? "Não, não há uma memória. A memória é subjetiva e individual. Cada um tem a sua. E é uma memória remodelada, uma rememória. Em boa parte, as pessoas montam suas próprias recordações. Não se pode confiar muito no relato objetivo. Mais nas motivações, porque se as pessoas não tivessem feito o que fizeram não teria acontecido o que aconteceu."
Para Fraser, a única materialização tangível da memória "são as fossas comuns, e mesmo nesse caso é preciso ir com muito cuidado, ser muito rigoroso. Já vi números muito exagerados em alguns lugares, em Valência, por exemplo. Deveria ser feito um controle refinado de tudo isso, em nível de Estado. Se não há um padrão, uma norma, cada região fará o seu a sua maneira e não conseguiremos cifras exatas e indiscutíveis".
Se as pessoas têm dificuldade para assumir seu passado, os países agem igualmente, ocultando ou negando os acontecimentos que para eles são traumáticos ou vergonhosos. Os japoneses insistem em ignorar sua responsabilidade e até negam a invasão da China. Os italianos deixavam passear de bicicleta por Roma o SS Erich Priebke, um dos carrascos das Fossas Ardeatinas.
Neste verão se viveu mais uma tentativa de fechar uma dessas grandes cicatrizes da memória que possui a vizinha França: o massacre de Oradour-sur-Glane, no Limousin. Em 10 de junho de 1944, efetivos da 2ª Divisão Panzer das Waffen-SS, a duríssima Das Reich, curtida e enrijecida na frente leste, assassinaram 642 pessoas - entre elas 245 mulheres, 207 crianças e o abade Chapelle, paradoxalmente partidário de Petain - e arrasaram a cidade em uma orgia de horror (chegou-se a atirar um menino ao forno do padeiro) vagamente justificada pelo suposto apoio da localidade à Resistência. Depois da guerra, na hora de julgar os fatos, a França se encontrou com a desagradável surpresa de que 14 dos SS acusados de participar do massacre eram alsacianos: 13 "Malgré nous" (incorporados à força ao exército nazista), mas também um voluntário. As sentenças foram muito brandas, o que provocou indignação por um lado, mas também o desagrado da Alsácia-Lorena, na consideração de que seus jovens tinham sido usados como bodes-expiatórios.
O assunto, a ponta do iceberg da participação francesa no exército de Hitler (47 mil alsacianos morreram ou desapareceram lutando sob as bandeiras nazistas no leste e um batalhão da Divisão das SS Carlos Magno, de voluntários franceses, esteve entre a nata dos defensores de Berlim), para não falar no colaboracionismo, continua sem estar totalmente resolvido. Os automóveis com placa dos departamentos da Alsácia foram tradicionalmente apedrejados em Oradour e no Limousin em geral, região onde os "maquisards" da Resistência foram muito castigados pelos nazistas (e não só ali: 105 homens acusados de fazer parte do maquis de Manises foram fuzilados em 12 de junho de 1944 nas Ardenas por um comando do 36º Regimento de Carros da Whermacht no qual também havia voluntários alsacianos).
Em seu livro sobre a sangrenta marcha da SS Das Reich através da França rumo à Normandia ("Das Reich", Pan Books, 1981), o historiador Max Hastings sugere que a conexão nacional com a chacina de Oradour poderia ser ainda mais sinistra: os nazistas teriam escolhido como alvo o povoado - um absurdo do ponto de vista militar - por causa de informações de uma fonte francesa ingênua ou mal-intencionada.
Em junho passado, no 64º aniversário do massacre, houve a enésima tentativa de reconciliação e do ato em memória das vítimas participaram Raphël Nisand, prefeito da alsaciana Schistigheim, que faz parte da comunidade urbana de Estrasburgo, e Jean Marie Bockel, que simbolicamente une a sua condição de secretário de Estado da Defesa e ex-combatente da Resistência o fato de ser alsaciano. Bockel reconheceu que é inegável que houve alsacianos que compartilharam a ideologia nazista, e ao mesmo tempo lembrou que entre os mártires de Oradour havia famílias alsacianas. O prefeito de Oradour, Raymond Frugier, é a favor da reconciliação, mas não muito antes teve de engolir o sapo de ver morrer de velhice, em sua cama e sem remorsos, com 86 anos, um dos piores sujeitos (e havia muitos), o sargento Heinz Barth, que se vangloriou diante de seu pelotão a caminho do povoado: "Hoje vocês vão ver correr sangue". Frugier disse: "Por crimes como esses uma pessoa não deveria ser perdoada".
Problemas com a memória como os de Oradour na França existem em todos os países. "Sim, claro", afirma Fraser. "A França não fez o que deveria fazer. Essas feridas demoram muito para sarar. Inclusive nos EUA de alguma maneira a brecha da Guerra Civil entre o norte e o sul se perpetuou por 150 anos. Na Espanha as feridas são maiores, especialmente entre os vencidos. Mas a sociedade espanhola está suficientemente madura para assimilar seu passado. É melhor assumir do que reprimir. Se não, sempre volta por caminhos inesperados."
Vocês, britânicos, também têm os seus, eu digo ao historiador; para não falar de que os incomodou ouvir que Montgomery era gay, aí está o recente problema com os gurkhas, as tropas mercenárias nepalesas que lutaram ferozmente pelo império e aos quais demoraram tanto a conceder direitos de cidadania. Inclusive dois vencedores da Segunda Guerra Mundial da Cruz de Vitória, a maior recompensa ao valor, Lachhiman Gurung, de 91 anos, e Tul Bahadur, de 86, tiveram de dar a cara e - como as legiões amotinadas do Reno diante de Germânico - mostrar suas cicatrizes nos tribunais.
Às vezes é mais fácil lutar com granadas contra os japoneses do que contra a memória fraca de um povo. "Sim, é incrível, essa gente que lutou na primeira linha por nós, tão valentes, e regateiam suas pensões. Na Grã-Bretanha temos outros casos: continuamos vivendo Dunquerque como uma vitória, quando foi uma grande derrota. Ou os bombardeios sobre a Alemanha: ainda se acredita que foram justificados, é difícil assumir que tanto sofrimento não serviu para encurtar a guerra. Esquecer, adaptar à memória a nossa conveniência, é uma reação humana comum, em nível mundial. Como você administra a memória tem a ver com o destino que tiveram as populações depois dos traumas. A Alemanha foi obrigada a assumir sua culpa em Nuremberg. Para o vencido a memória sempre é muito problemática."
Uma guerra fratricida é ruim para a memória. "E mais que isso. Na Espanha houve um grande silêncio entre os que a viveram. Ninguém falava disso com seus filhos. Silêncio e esquecimento. Creio que em seu foro íntimo, com o passar dos anos, todos, inclusive os vencedores, pensavam que nada valia a pena uma guerra civil. Agora parece que as pessoas estão dispostas a falar. Mas nunca se poderá fazer uma recuperação total. É preciso assumir as feridas que restaram do conflito."
Fraser duvida quando lhe pergunto se confrontar as pessoas com sua memória, fazê-las recordar, tem um valor catártico: "Eu não saberia dizer, mas houve um caso, um capitão de artilharia que eu entrevistei e que participou da tomada do Quartel de la Montaña. Depois de lembrar tudo, sofreu um infarto. Imagine, um homem que havia sobrevivido à guerra e eu quase o matei ao fazê-lo recordar."
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sábado, 9 de outubro de 2010
Ele, um nórdico, se inclina invasivamente para a frente, com seu corpo de aço, enquanto permanece ladeado de seus úteis e simétricos comparsas. Há contudo uma cortina húmida de gotículas que os separam de nós. Ainda assim, aparte, pretende nos inspirar. Mas eis que um dedo mágico deslizou pelo seu corpo, ou seria pela cortina separadora? Superfície ou substância? E nos deu a visão. A visão que já tínhamos, porque esse toque de agora sempre esteve lá, nasceram juntos e não saberemos jamais se um poderia existir sem o outro.
quinta-feira, 17 de junho de 2010
Mosca dormindo, águia acordada
Voava como uma águia, e a todo momento se pegava arremetendo com fúria sobre as presas-alimento, a ponto de esquecer que era somente uma mosca ousada e pretensiosa.
Mas tinha sonhos maiores para si e sabia em seu íntimo que era uma águia. Talvez, imaginava, pela trama do destino, tivesse vindo parar em família errada, como certa vez ocorreu a um patinho feio que na verdade era um cisne.
toda vez que encontrava uma guloseima especial e se esbaldava de comer a ponto de adormecer perigosamente sobre o doce, tinha pesadelos de que não era uma águia, mas uma horrenda, nojenta e frágil mosca, isso fritava-lhe os nervos e acordava numa revoada. prometia-se então: "nunca mais vou comer nesse tanto, isso não me faz bem"; mas as tentações eram maiores e não conseguia, tudo acabava se repetindo sempre.
um dia, no meio do pesadelo de mosca, veio-lhe atrás o cozinheiro com o mata-moscas, ela, a águia que dormia, esquivou-se tenazmente, mas atingida, caiu ao chão e começou a agonizar. acordou assim de seu pesadelo de mosca e se propôs pela última vez que, se escapasse desta vez, "nunca mais iria comer muito, dormir mal e sonhar ser mosca"...
Mas tinha sonhos maiores para si e sabia em seu íntimo que era uma águia. Talvez, imaginava, pela trama do destino, tivesse vindo parar em família errada, como certa vez ocorreu a um patinho feio que na verdade era um cisne.
toda vez que encontrava uma guloseima especial e se esbaldava de comer a ponto de adormecer perigosamente sobre o doce, tinha pesadelos de que não era uma águia, mas uma horrenda, nojenta e frágil mosca, isso fritava-lhe os nervos e acordava numa revoada. prometia-se então: "nunca mais vou comer nesse tanto, isso não me faz bem"; mas as tentações eram maiores e não conseguia, tudo acabava se repetindo sempre.
um dia, no meio do pesadelo de mosca, veio-lhe atrás o cozinheiro com o mata-moscas, ela, a águia que dormia, esquivou-se tenazmente, mas atingida, caiu ao chão e começou a agonizar. acordou assim de seu pesadelo de mosca e se propôs pela última vez que, se escapasse desta vez, "nunca mais iria comer muito, dormir mal e sonhar ser mosca"...
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