quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Manifestações 5: A polícia vista por quem exerce a cidadania

Não é fácil ser um agente público num órgão de controle numa sociedade desigual, de recente vivência democrática e de histórico autoritário e elitista. E é menos fácil ainda ser "apenas" cidadão nessa mesma sociedade.

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A polícia (de choque) nos protestos.

Discuto aqui a atuação desviante dos policiais nos protestos, ou seja, quando é o caso de agir e se omitem de usar a força necessária para fazer cessar danos pessoais e materiais nos protestos ou quando exercem a força, mas em desproporção ou em face de cidadãos que não estão causando danos.

A atuação que resguarda os direitos fundamentais enquanto atua, bem preparada, com uso adequado de força e que busca evitar o conflito é a típica atuação de poder público que se espera e que se justifica.

Parece uma desgraçada ironia que os agentes públicos que exercem a função policial sejam, na maioria das vezes, (mal) pagos com recursos dessa própria sociedade para usar de força (violência) contra essa mesma sociedade, sob o fundamento de que estariam ali para defender o regime público que garante essa mesma sociedade, quando a sociedade em si já rejeita esse mesmo regime público. Estamos, por certo, falando de muitas sociedades diferentes, mas todas compõem a grande, complexa e diversa sociedade brasileira.

Policiais e todos os demais agentes públicos que estão no dia a dia das ruas são os mais expostos e acessíveis para a sociedade. Todas os políticos e os chefes e mais chefes da imensa máquina administrativa, todos os que não estão "no balcão", no atendimento, na rua, também fazem parte do problema e não devem ser esquecidos.

Logo, não faz sentido culpar apenas os policiais pela violência policial, assim como não faz sentido você xingar a atendente da companhia aérea quando seu vôo atrasa (a culpa não é dela e ela não pode resolver).

Assim, no caso de abusos policiais com danos à integridade física dos cidadãos deve-se ter uma ampla visão responsabilidade de todos os agentes públicos envolvidos, direta ou indiretamente, com ações e omissões, lembrando que a cadeia de comando final cabe aos chefes do poder executivo, especialmente governadores.


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A inversão do (ab)uso de autoridade:



Este texto para da reflexão sobre as ameaças sofridas por um dos humoristas do grupo

É claro que ser alvo de chacota é ruim, e especialmente para as autoridades, que precisam ser reconhecidas enquanto tais para exercerem suas funções.

Mas o humor, numa democracia, é uma forma abordar questões difíceis. E a violência policial, uma das formas de violência estatal que existem é uma dessas questões difíceis.

Na falta da empatia para se colocar no lugar de quem já sofreu, só quem já foi humilhado ou agredido para saber qual é a sensação.

A questão que vejo é, de novo, numa democracia, os agentes públicos estão sujeitos à crítica, ela faz parte, e eles não devem usar o poder público do qual são guardiões (no caso de policiais, armas, treinamento, viaturas etc.) para se vingar de algo que não gostaram. A frustração faz parte da vida adulta, do espaço público e da democracia.

Acho aliás, que a esquete do 'porta dos fundos' não foi inocente, acho que ela é muito inteligente.

Eles inverteram a posição da autoridade, que não é dada mais pelos sinais exteriores e nem pelo cargo exercido e sim pela legitimidade da cidadania.

É claro que os cidadãos ali representados cometeram abuso do direito de cidadãos que fiscalizam; da mesma forma que agentes públicos (não só os policiais) cometem abusos bastante frequentemente.

Vejo um lado muito positivo e dois muito negativos nessa situação:

O primeiro negativo é a possibilidade de agentes públicos - armados ou não - usarem dos recursos e investidura pública para se vingarem de críticas que não gostem.

O segundo negativo é o "gostinho", de vingança dos humilhados, que faz as massas se identificarem com a revolta dos oprimidos e a humilhação daqueles que tem poder. Isso me parece um ressentimento capaz de alimentar um conflito social explosivo.

O aspecto: o vídeo surpreende ao colocar a autoridade fora de onde normalmente esperamos que ela esteja, no Poder, no lado mais forte, no Estado e na Polícia, e a coloca no lado ordinariamente tido como mais fraco, cidadãos comuns e a sociedade civil.

Vejo essa inversão como sendo do mesmo quilate do filme Brokeback Mountain onde Ang Lee colocou cowboys, símbolo da macheza, no papel de homossexuais.

É uma crítica dura a quem exerce o poder público no país (não só aos policiais), mostrando que, elas por elas, o cidadão também tem o poder de (ab)usar de seu poder legítimo, como o tem os agentes públicos.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

A Grande Beleza (texto baseado no filme)

O vovô está muito parado hoje.
Está olhando pela janela desde manhã.
Eu olhei também, mas não consegui ver o que ele vê.

Às vezes ele sorri sem tirar os olhos de lá.
 Aí eu olho de novo... mas nada.
Perguntei à mamãe e ela disse que é para eu ir cuidar de coisas de crianças.
E deixar as coisas de velho prá lá.

Por mais chato que seja olhar para o Jeb parado lá a manhã toda,
Quando ele sorri, parece que alguém está puxando e abrindo as cortinas para um belo espetáculo começar.
O que não faria sentido seria sorrir assim ao final do espetáculo.

Eu odeio a minha vida.
A voz doce da minha mãe me enjoa como um melaço tomado no bico da garrafa.
O olhar cuidadoso de meu pai me cerca e me oprime.

Eis que um dia conheço o amor.
A lua reflete-se na água, a água ondula com o vento e o vento brinca com teu vestido.
Tu diz-me 'Vem' e é como se o tempo também fosse contigo, lento, lentíssimo.
E de repente,

Tudo acelerado. Rodopiam. Gritam. Se esfregam. Cospem. Chafurdam.
E eu com eles. Eu sou eles. Não busco mais nada. Tampouco fujo. Fico ao vento.
E o vento me assopra. Mas persisto altivo. Me bajula, persisto. Me vira o rosto, me rio.
E eis que desiste. E por um instante sinto o sol arder em meu rosto, antes que a noite fria, acelerada, me abrace, dizendo-me que ela, e só ela, será minha companheira até o fim.

Sinto saudades. Sinto tristeza. Sinto culpa. Por isso não sinto mais nada.
Apenas um leve incômodo em meus cotovelos há tanto tempo apoiados no parapeito da janela.
E lembranças que me assaltam furtivas, brincalhonas, saudosas de mim.
E meu neto a me olhar, curioso, como se quisesse adivinhar o que vejo.

Ora o que vejo...

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Teia Social: Finalizada a primeira escrita.

Como dizem, toda jornada que começa, chega a um fim.

E por isso apresentamos a vocês a versão finalizada da teia social.

É certo que o livro ainda passará por uma revisão atenciosa e que a previsão da finalização desta primeira edição esteja por volta de julho/2014. Mas o conteúdo em sua essência e substância já está todo aqui.

O trabalho ainda está aberto para as contribuições e, neste momento, especialmente para esclarecer e aprimorar os trechos e ideias que tenham gerado alguma dúvida ou rejeição firme durante a leitura. Sintam-se a vontade para mandar contribuições em privado no facebook ou pelo email aureolopes@mpf.mp.br

Fazemos um agradecimento especial a todos os leitores que têm nos acompanhado nesse projeto, dedicando seu tempo a leitura tão exigente.

O texto do livro da teia, em seu estágio atual, será progressivamente incorporado às respectivas páginas da Wikiteia (https://teiasocial.mpf.mp.br/index.php5/Página_principal
 
)

Sinceramente,

Aureo Lopes

https://teiasocial.mpf.mp.br/images/2/29/Teia_social_-_primeira_escrita_finalizada_-_05-01-14_.pdf
 

domingo, 5 de janeiro de 2014

Como me sinto? Empurrado pelo presente em direção a um passado que me suga e a um futuro que me ignora.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Sou homem e amo...no futebol!

Vivemos numa cultura na qual é difícil para a maioria dos homens expressar o que sente. Afinal, podemos sentir qualquer coisa como apego, dedicação, confiança, esperança, dúvida, medo, tristeza, amor etc.

Com o tempo, alguns com mais, outros com menos, vamos aprendendo a expressar nossos sentimentos, um pouco com nossos pais, mais espontaneamente com nossas mulheres, mais naturalmente com nossos filhos. Mas expressar em público, perante outros homens, continua sendo um tabu.

Sentimentos relativos à sensibilidade e à fragilidade parecem ter sido reservados apenas às mulheres, como se os homens não sentissem tal coisa. Daí vem toda aquela ladaínha de "viadinho", "mulherzinha" etc. com a qual brincamos ou xingamos outros homens ainda que não tenhamos colocado em xeque sua opção sexual. Com isso estamos sendo papagaios de uma cultura herdada sobre a qual talvez não tenhamos refletido sobre o quanto realmente ela é importante para nós ou não.

Mas os sentimentos não são uma dimensão pessoal que possa ser simplesmente ignorada e, nesse momento podemos dizer: Ainda bem que temos o futebol!

No futebol - e alguns homens talvez apenas no futebol - podemos ser livres. Podemos abandonar a racionalidade e sentir. Podemos abandonar o utilitarismo e termos orgulho de sermos leais a um time ainda que ele só nos traga tristezas, vivendo um nobre sentimento de fidelidade.

No futebol podemos acreditar em um time, confiar que ele vai vencer, ainda que contra as probabilidades. Somos, portanto, homens de esperança, aquela esperança que muitas vezes não nos permitimos num dia a dia duro e frustrante.

No futebol podemos abraçar nossos amigos e pular de alegria sem que sejamos chamados de "bichas". No futebol podemos chorar de tristeza, como crianças, sem ser xingados de "maricas".

Mas, acima de tudo, no futebol podemos amar. É nesse ambiente, é sobre esse fundamento e é nessas oportunidades que podemos nos permitir viver, publicamente, os sentimentos do amor.

O amor ao time. Ainda que um amor-guerreiro que muitas vezes depende da negação do time adversário para encontrar a própria identidade e o próprio valor. Mas é amor.

É amor porque no futebol, como torcedores, somos todos iguais e abandonamos a questão do poder. Ninguém é mais que ninguém e todos os torcedores são iguais e estão no mesmo barco, amarrados ao mesmo sentimento e destino.

É um amor indulgente, que nos liberta do fardo de lidar com a ambiguidade do amor-ódio que anda sempre presente. Amamos o nosso time, odiamos o adversário clássico, e isso basta.

É amor porque nos tira completamente da indiferença com que normalmente olhamos para tudo o que não nos atinge em nossos interesses individuais. Como torcedor, nada em meu time pode me prejudicar ou beneficiar diretamente: não me deixa mais rico ou mais pobre e não tem efeitos materiais sobre mim.

Mas que estrago faz em meu espírito e humor quando perde. E como enche o meu peito de alegria quando ganha. Ilumina ou escurece minha vida e posso contar isso, de boca cheia, para quem quiser ouvir. E vou ser aceito em meus sentimentos se expressá-los como torcedor.

O ciúme da mulher (do torcedor) pelo tempo roubado, pelo brilho nos olhos que não vem dela, também atesta que é uma relação de amor. Imagino que deva existir um sentimento dúbio no coração da mulher de um torcedor: feliz por vê-lo sentir, triste por não ser a causa.

Afinal, se não fosse amor, seria o que? Qual o sentido de um jogo ocupar tanto das vidas, do tempo e dos nossos recursos? Mas se é a chance de sentirmos, de cantarmos, de gritarmos (bora soltar os bichos e viva ao banho de sol para os demônios interiores), de chorarmos, de amarmos, aí tudo bem porque por amor, vale tudo.

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Uma leitura interessante sobre o tema da fragilidade, para homens e mulheres, é o Livro "Fragilidade"de Jean - Claude Carriére. Ed. Objetiva.

domingo, 27 de outubro de 2013

O brasileiro valoriza o conhecimento?

Distraído aqui numa agradável tarde de domingo fui assaltado por uma pergunta:

O brasileiro fala tanto na importância da educação, mas qual o valor que ele dá para o conhecimento? Ele realmente se importa com o conhecimento?

A princípio poderíamos cair na crítica fácil de dizer que não, não se importa, lê pouco e não dá o devido valor ao conhecimento.

Na verdade já observei em alguns diálogos que o brasileiro médio se importa sim, e muito como conhecimento. Coisas que se ouvem por aí:

"Rapaz, eu tô com um problema lá na empresa, mas não tô preocupado porque meu cunhado tem conhecimento lá na fiscalização"...

"Gostaria muito de ter conhecimento lá na prefeitura, para resolver isso aí..."

"Ele tem conhecimento lá na diretoria? dá para confiar nele?"

kkkkk